CUBA RESISTE!

14/07/2021 às 17:48 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comentários
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É sempre bom ouvir, ver e ler “outra voz” sobre os recentes acontecimentos naquela ilhazinha que tira o sono dos ianques há tantos anos. Salve Frei Betto !

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CUBA RESISTE!

(Frei Betto)

       Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período  intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros “Fidel e a religião” (Fontanar/Companhia das Letras) e “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.

       Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamentos à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leigos cubanos avessos ao socialismo.

       Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistos sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital?

       Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, “orgulhar-se” da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.

       Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.

       Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.

       Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos… O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?

       Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas.

       Democracia, no meu conceito, significa o “Pai nosso” – a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o “pão nosso” – a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.

       Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de “prostíbulo do Caribe”. A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular…

       Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje.

       Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do “sonho americano”, promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a “solidária” ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile.

       Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Diaz-Canel: “Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar “missões humanitárias” que se traduzem em invasões e interferências militares.”

       “Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia.  Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção “humanitária”, que terminaria em intervenções militares”.

       “Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro.  Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração.”

       “Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos.”

       “Também temos limitações de combustíveis e peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano.”

       “O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos.  Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto,  tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação,  segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado.”

       “Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz).”

       “Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha.”

       É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.

Frei Betto é escritor (freibetto.org). Assine e receba os artigos e livros do autor: mhgpal@gmail.com

O ELIOTÉRIO

08/07/2021 às 3:13 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Porque rir é preciso, em qualquer situação. Mais um “causo” do Política com Vatapá, de Levi Vasconcelos.

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O eliotério

Essa quem conta é o leitor José Augusto de Souza. Ou melhor, ele conta que o pai dele, Edgard de Souza, popularmente conhecido como Edgard do Boi, contava uma pérola do folclore político de Nazaré das Farinhas.

Lá pelo fim dos anos 50 as águas do Rio Jaguaripe, que corta o centro de Nazaré, protagonizou uma grande enchente: o então folclórico prefeito, Santos Melhor, aquele que foi inaugurar uma grande obra da sua gestão, o mictório público na feira livre, e ao sair fechando a barguilha, teria dito que ‘o mictório já está anargurado’, estava lá em meio à multidão aguardando a visita do então governador Juracy Magalhães, que sobrevoava a cidade ilhada de helicóptero, quando lhe perguntaram:

— Prefeito, vosmicê ja foi falar com o “homem”?

— Que homem?

— O Juracy.

— O homem eu já conheço. Eu vim aqui foi ver o eliotério.

Era o helicóptero.

(Levi Vasconcelos)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR – BA, 06.06.2021

VACINA E CORRUPÇÃO

05/07/2021 às 11:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais um bom artigo de Emiliano José ! Vivemos hoje um recorde em pedidos de impeachment. A NAÇÃO ESPERA !

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VACINA E CORRUPÇÃO

Lembro frase de Waldir Pires: corrupção a gente combate todos os dias. Pode não acabar com ela, dizia, mas é tarefa essencial fazer a luta cotidiana para enfrentá-la. À frente da Controladoria Geral da União, sob o governo Lula, soube fazer isso, sem descansar um minuto. Compreendia: isso dependia de instituições sólidas sob o Estado de Direito, de uma sociedade civil vigilante, de órgãos do Estado capazes de assimilar a ideia central do respeito ao dinheiro público. Não se fazia isso a partir do caráter desse ou daquele cidadão, mas sim de políticas públicas determinadas a vigiar com rigor a aplicação dos recursos do Estado. Durante todo o tempo à frente da CGU, fez isso com absoluta transparência.

Penso na utilização política do tema corrupção em nossa história. Sempre evocado pela direita, curiosamente exatamente pelos mais notórios corruptos. Qualquer navegação pela história recente do País, constatará isso. Assim com Getúlio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com a vassourinha de Jânio Quadros, com os golpistas de 1964, com a ditadura, Collor, no decorrer dos governos do PT, sobretudo pelo caminho da Operação Lava Jato – a corrupção grassava, enquanto fingia-se o combate ao roubo, essa receita nunca variou.

A Lava Jato queria chegar a Lula, seu objetivo central – ela o fez, até desmoralizar-se por completo como operação destinada não só a favorecer a eleição de Bolsonaro como a entregar os destinos de nossa soberania aos EUA. Agora, nos defrontamos com o grotesco e trágico governo Bolsonaro, cuja campanha falou muito em combate à corrupção, encampando, como extrema-direita, a receita tradicional. Grotesco, dispensa explicação. Trágico, porque a corrupção é praticada por sobre o cadáver de mais de 520 mil pessoas vitimadas pela Covid.

Do negacionismo, até hoje não abandonado pelo presidente atual, passou-se ao mercado das vacinas e às escandalosas manobras destinadas a encher os bolsos dos operadores do governo e de estranhos personagens a ele ligados. Muito dinheiro em jogo, trágica movimentação por sobre a dor, por sobre as lágrimas das famílias enlutadas pela perda de seus entes queridos. Ao anúncio do combate à corrupção, passa-se vorazmente à prática da corrupção, como sempre acontece em nossa história, lamentavelmente.

O Legislativo brasileiro, com a CPI da Covid, dá até agora sinais de vitalidade, de responsabilidade com o povo brasileiro. Nossa gente, apesar e por conta da pandemia, toma as ruas de modo a revelar sua profunda insatisfação com relação exatamente à escassez de vacinas, à inexistência de renda por parte do governo para assegurar a existência dos milhões sem renda, ao inédito volume de desemprego, clamando pelo impeachment, retido até agora na Câmara Federal, nas mãos do presidente Arthur Lira, líder do Centrão.

As próximas horas serão decisivas. A CPI vai aceleradamente revelando o que se escondia no breu das tocas, dando farta munição ao impeachment, justificativas sólidas. A pressão popular, cada vez crescendo mais, pode levar o Legislativo a assumir uma das propostas de impeachment sobre a mesa. É o que a Nação espera.

(Emiliano José)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 05.07.2021

A negação da privacidade e a privatização do conhecimento

30/06/2021 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais um excelente artigo do Professor Paulo Ormindo de Azevedo, da UFBA. E ao final a música citada no texto.


A negação da privacidade e a privatização do conhecimento PauloOrmindo

Quando realizamos uma compra e damos o nosso CPF, o vendedor declina nosso endereço, telefones e RG. Os cartões de crédito sabem todos os nossos hábitos de consumo e lazer e vendem estas informações à terceiros. Quando entro na internet para saber o preço de um voo, recebo ofertas de hotéis e excursões locais. Todos os espaços públicos estão monitorados por câmeras de vigilância social. Qualquer pessoa pode ser detida e acusada de um crime porque um aplicativo facial a achou parecida com alguém do cadastro da ABIN, FBI ou CIA. O escritor George Orwell previu o controle absoluto da cidadania num estado comunista. Sua profecia projetada para 1984 virou realidade na era digital e é mais universal do que ele pensou.

Nas democracias ditas liberais, o Big Brother se chama Mercado. Ele controla a conjuntura política, econômica, social e inclusive as vidas privadas, mas é tão sedutor que ninguém se revolta. “Povo marcado, povo feliz”, como canta Zé Ramalho, em “Admirável gado novo”. Celulares, TVs inteligentes e babás eletrônicas filmam e gravam conversas dentro de nossas casas. Provadores e sanitários de lojas gravam seus clientes para evitar roubos. Hackers – uma das profissões mais bem remuneradas hoje – invadem bancos de dados estatais e roubam suas informações. Não temos mais nenhuma privacidade, embora a Constituição Federal diga que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral”.

A Propriedade Intelectual, protegida por leis e convenções internacionais, se divide em Propriedade Industrial, relativa às patentes e marcas, e Direito Autoral, que se refere à criação artística. A primeira, que tem sua origem no Renascimento, e depende de investimentos em pesquisa, tem validade por só 20 anos e mesmo assim pode ser quebrada, como no caso dos genéricos. O Direito Autoral, regido pela Convenção de Berna, de 1886, protege o autor, sem necessidade de nenhum registro, por minimamente 50 anos após sua morte. É como se tudo fosse tombado.

Os EUA, que defendiam os editores com o copyright, e não reconheciam Berna, promoveram a Convenção de Genebra de 1952. Para entrarem no gordo mercado americano, a maioria dos signatários de Berna aceitou a de Genebra. Para os especialistas, matérias jornalísticas e registros mecânicos fotográficos, a menos que sejam crônicas ou fotos elaboradas, não são criações artísticas, mas os editores exigem dos autores autorizações de todas as fotos. Descendentes de autores, que gozam deste privilégio, só criam problemas para a difusão da obra de seus pais e avós, a troco de muito dinheiro. Estes são enormes entraves à difusão do conhecimento e precisam ser revistos na era da reprodução automática da obra de arte (Benjamin).

(Paulo Ormindo de Azevedo)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 27.06.2021


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