UNIVERSIDADE SITIADA

21/09/2019 às 3:30 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Excelente esse artigo de Emiliano José: POR UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA GRATUITA, AUTÔNOMA LIVRE E LAICA !


UNIVERSIDADE SITIADA

Em 1968, estávamos nas ruas contra o acordo MEC-Usaid. A ditadura e os EUA pretendiam a privatização do ensino brasileiro. Resistimos o quanto possível, ano todo. O projeto seguiu adiante, não obstante não tenha sido exatamente sob o guarda chuva formal daquele acordo. O capital andou rápido: chegou de modo avassalador ao ensino superior e médio. Para isso, foi essencial não apenas a ditadura. mas uma ditadura feroz, ainda mais assassina do que a primeira fase dela, vinda no embalo do AI-5.

Para tratar apenas da universidade, os pais, quisessem filhos no ensino superior, teriam de pagar. Era o modelo made in USA. A universidade pública, porque não se expandia, reservada às elites. Até a chegada do governo Lula, em 2003. O presidente operário, sem diploma universitário, e talvez por isso mesmo, promoveu a maior expansão do ensino superior público de nossa história. A Bahia, de uma instituição, a gloriosa UFBA, passou para sete, só para dar um exemplo. As antigas Escolas Técnicas foram substituídas pelos Institutos Federais, centenas deles espalhados pelo Pais, comportando também ensino superior.

As cotas e o -Prouni garantiram também aos jovens pobres, majoritariamente negros, chegarem à Universidade. Para desespero das classes dominantes, parcelas do nosso povo chegavam ao ensino superior. Mudava a cor e a composição de classe de nossas instituições de ensino superior. Isso é inaceitável às classes dominantes brasileiras. Os pobres, os negros, os trabalhadores no Brasil secularmente desigual, marcado desde sempre pelos quase quatro séculos de escravidão, já têm destino traçado. e dele não devem escapar. Era ousadia demais de Lula pretender mexer nisso, pedra angular da desigualdade, o acesso desigual ao ensino superior.

Por isso, não é propriamente surpreendente queira o atual governo, de cujos traços fascistas ele é réu confesso,  eliminar a ferro e a fogo todas as conquistas de 2003 aos dias de hoje. Não se trata desse ou daquele ministro. Trata-se de um projeto. Hoje, mais do que ontem, a frase atribuída a Darcy Ribeiro é mais do que verdadeira: a crise da educação brasileira não é uma crise, é um projeto. Eles sabem a razão pela qual atacam Paulo Freire.

A sociedade brasileira, nas últimas manifestações, mostrou já ter percebido a gravidade do ataque a um direito essencial do nosso povo, da nossa juventude. Sorte ter à frente da Andifes uma liderança do porte, da densidade, da coragem, da lucidez, do nosso João Carlos Salles, reitor da UFBA. É dever da cidadania, não apenas de estudantes, professores, funcionários, intensificar a luta em defesa da Universidade pública, gratuita, voltada ao ensino, à pesquisa, à extensão, acessível a todo o nosso povo. Nada de cruzar os braços. Transformar a indignação em amplos movimentos de rua, única forma de barrar a destruição da Universidade.

(Emiliano José)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 02.09.2019

Anúncios

A extrema-direita da extrema-direita

19/09/2019 às 3:59 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: ,

Mais um excelente artigo do Professor Carlos Zacarias. Confiram !

Alerta


A extrema-direita da extrema-direita carelos-zacarias_thumb

Não há nenhuma novidade novidade nas palavras de Carlos Bolsonaro, que disse esta semana que “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”. O viés autoritário no clã presidencial não devia gerar surpresa, porque ameaças à democracia nunca faltaram. A repercussão é o que há de novo.

Para alguns veículos de comunicação que apoiaram o golpe contra Dilma, conspiraram com a Lava Jato para criar o caos institucional e permanecem fazendo de conta que não são corresponsáveis pela escalada autoritária que se vive no pais, o que interessa é saber o que ganham e o que perdem com uma eventual ditadura, desejando que os Bolsonaro apenas não atrapalhem seus negócios.

Entre os apoiadores de Bolsonaro no meio democracia da parte de quem zelosamente apoia o Titanic bolsonarista enquanto este não se depara com o iceberg. Engraçado mesmo foi ver Hamilton Mourão dizer que a democracia é um dos “pilares da civilização ocidental”. Palavras tão bonitas quase nos fazem esquecer que o general vice-presidente passou os últimos anos defendendo o golpe militar para pôr ordem no país.

Bolsonaro vem perdendo apoio, não há dúvida. Isso, contudo, nunca se deu pelos arroubos autoritários seus ou de seus filhos, todos fãs incondicionais de Brilhante Ustra. Apesar disso, uma parte dos que pularam fora do governo não o fizeram constrangidos com o desmazelo do governante, mas porque ainda acham-no pouco radical. Onde já se viu um presidente que vivia prometendo fechar o Congresso e matar 30 mil, agora precise negociar com o que chamam de velha politica e ainda seja criticado pela imprensa e por congressistas?

Em pesquisa do Datafolha, onde se detectou um contingente de 12% dos eleitores que permanecem fiéis ao ex-capitão e são houve espaço para se conhecer minudências de quem está rompendo com o presidente. Melhor que se vejam as pesquisas académicas, que tem identificado as formas como o ódio tomou a política do pais nos últimos anos, conformando o esteio do bolsonarismo. Para a antropóloga Isabela Kalil, há eleitores insatisfeitos com Bolsonaro porque este não entregou o projeto de extrema-direita que prometeu: “Eles citam expectativas de fechamento do Congresso e se queixam muito da questão da posse e porte de armas. o bolsonarismo faz surgir agora uma extrema-direta da extrema-direta”.

Uma amiga me contou que ouviu alguém dizer que o presidente não estava cumprindo o prometido, “porque havia muitos índios e comunistas escondidos por ai e a solução era dar cabo dessa ente”. Não há dúvida de que o nosso fascismo tem ainda longo terreno para trilhar. Até que Bolsonaro, ou qualquer outro, incorpore o Duce ou o Fuher, será preciso que muito sangue seja derramado, pois a sede é infinita.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 12.09.2019

Atrás do Queiroz

17/09/2019 às 3:35 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Veríssimo, atual e genial como sempre.


Atrás do Queiroz 

Mort. Ed Mort. Detetive particular. É o que se lê na porta do meu escri (o “tório” eu subloco) numa galeria de Copacabana. Divido meu espaço com dezessete baratas e um ratão albino. O ratão às vezes desaparece, mas sempre volta, por isso eu o chamo de Voltaire. Minhas frases são curtas como o cano do meu 38. O 38 está empenhado, mas ninguém saca um ticket de casa de penhores do bolso com a minha rapidez. Mort. Ed Mort.

A Patricia Pillar e eu estávamos tendo uma conversa agradável, sobre a lua e os ministros, como diria o Machado de Assis, quando o ruído de alguém abrindo a porta me acordou. Entrou um homem. Odeio quando isso acontece, Pelo penteado, alguém do governo. Terceiro escalão, mas com vista para o mar. Perguntou:

– Mort? Ed Mort?

– Não — respondi. – Gianecchini. Reynaldo Gianecchini.

–  Mas na porta está es- crito…

– É parte do meu disfarce. O que você quer, já que interrompeu minha sesta?

– Você ouviu falar no Queiroz?

– Queiroz, o desapareci- do? Sim.

– Queremos que você o procure. Estamos dispostos a lhe pagar o que for preciso para procurar o Queiroz. Contrate quem você quiser. Busquem em toda parte. Armários, bueiros, canos, porões, matagais, o Brasil de ponta a ponta. Subam todos os morros. Queremos mostrar para a Nação que estamos empenhados em encontrar o Queiroz, e não em escondê-lo para que não conte tudo o que sabe, como dizem.

– E o que fazemos com o Queiroz quando o encontrarmos? – perguntei, caprichando no pronome, dada a solenidade do momento.

– Quem falou em encontrar? Queremos que procurem o Queiroz, e façam isto com bastante barulho, não que o encontrem. Pela sua reputação, ninguém é mais indicado para não encontrar o Queiroz do que você, Mort. A pátria precisa das suas trapalhadas.

Olhei em volta para ver se o Voltaire estava registrando aquilo. Trapalhadas, ahn? Decidi não só não aceitar o que me ofereciam em dólares para não encontrar o Queiroz como começar uma investigação séria sobre quem mandou matar Marielle, para saberem com quem estavam lidando. Assim que terminasse a sesta,

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, 12.09.2019

Bolsonaro e o Multiverso

16/09/2019 às 3:38 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
Tags: ,

Excelente artigo !


 

 

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: