Cortina de fumaça coisa nenhuma

19/01/2019 às 2:59 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Essa é uma das melhores características desta grande rede virtual: conhecer obras, autores e professores dos mais diversos lugares do planeta. Tenho, via Internet, alguns bons professores que nunca conheci e provavelmente nunca conhecerei pessoalmente em vida, mas que foram e são uma fonte de conhecimento e sabedoria imensuráveis. Um deles é Carlos Zacarias de Sena Júnior, da UFBA, sempre presente neste blog. O conteúdo deste artigo serve para reflexão do atual momento político que estamos vivendo. Mas, sinceramente, é tanto absurdo nesses primeiros dias de (des)governo que é lícito desconfiarmos se não estamos diante de um embuste (ou de vários) com o objetivo de desviar mais uma vez nossa atenção para o que vem por ai de mais profundo em termos de política econômica. Sem querer desmerecer a brilhante análise do Professor ao especificar os quatro núcleos do (des)governo atual, na minha opinião tudo isso vem de fora, como inclusive ele mesmo já disse em outras oportunidades (de fora = EUA, por óbvio !).


Cortina de fumaça coisa nenhuma Carelos Zacarias

Quem não sabe contra quem luta, não pode vencer. Os primeiros dias do governo de Bolsonaro provocaram imensa confusão nas hostes da esquerda. Acostumados a embates que se dão nas inúmeras querelas que dividem a própria esquerda ou, no máximo, no terreno da direita e da centro direita tradicionais, partidários da esquerda parecem confusos diante da profusão de fatos produzidos pelo governo que estreou no dia 1º.

Campeã das polêmicas que movimentaram os primeiros dias, a pastora evangélica e agora ministra Damares Alves tem  incumbência, ao lado Vélez Rodrigues, de travar uma guerra contra o que o governo imagina ser a doutrinação nas escolas e ao que chamam de “ideologia de género”. Por conta do seu cariz ideológico fundamentalista, logo em seguida a posse, a ministra declarou que “na nova era, menino veste azul e menina veste rosa”, o que provocou a ira de parte da esquerda, enquanto outra parte redarguia dizendo ser a declaração, e todas as outas que vieram em seguida, uma cortina de fumaça para desviar os olhos das pautas econômicas que é aquilo que efetivamente interessa.

Nos dias seguintes foram tantos os acontecimentos que parecia impossível não se crer que não era proposital. Num dia Damares ataca a teoria da evolução e diz que as feministas não  gostam de homens porque são feias; noutro o comandante da Marinha diz que o Brasil lutou três guerras mundiais (sic) ao lado dos Estados Unidos; quase ao mesmo tempo, o indicado para a diretoria do IN£P, responsável pelo Enem, é acusado de plágio; em seguida Eduardo Bolsonaro diz  que fará revisão histórica sobre ditadura nos livros didáticos,  enquanto o guru Olavo de Carvalho questiona se a Terra orbita mesmo o Sol e Onyx compare a posse de armas a ter liquidificador em casa, tudo isso embalado no ritmo da dancinha de Queiroz no hospital. Convenhamos, não é fácil.

Mas se engana quem acha que se trata de cortina de fumaça. Fosse assim, Bolsonaro seria demasiado astuto e competente, o que o tomaria mito mais perigoso do que já é. Também não há nenhuma homogeneidade na equipe, pois ao que tudo indica o governo é formado por quatro núcleos: o bolsonarista, mais ideológico e tornado pelo grupo familiar a os indicados de Olavo de Carvalho; o núcleo militar, que tem a função de tutela e salvaguarda armada para o caso de a situação fugir in controle, o núcleo político, encarregado de lidar com o Congresso e trabalhar por dentro da política tradicional, e o núcleo ultraliberal, comandado por Paulo Guedes, o único que foi terceirizado, já que Bolsonaro assumiu que não emende nada de economia. O sucesso do governo dependerá da articulação dos seus núcleos, porque não será possível dilapidar o patrimônio e retirar direitos sem atacar a imprensa e intimidar artistas e intelectuais. Quanto mais cedo a esquerda entender isso, tanto melhor para preparar a resistência.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 18.01.2019

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Dr. Jekyll e Mr. Hyde

18/01/2019 às 3:58 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Veríssimo, sempre genial !


Dr. Jekyll e Mr. Hyde  Verissimo_sax

O título completo do livro é O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Foi escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, no século 19, e adaptado para o nosso século. O estranho caso narrado é de dupla personalidade: o respeitado Dr. Jekyll, que todos chamam simpaticamente de “Capitão”, tem um grande círculo de amigos e são estes que o convenceram a concorrer à Presidência do Brasil.

Mr. Hyde é o oposto do Dr. Jekyll. Não só não tem amigos como espanta os amigos do Dr. Jekyll com sua truculência e seus modos à mesa. Nada disso teria muita importância – afinal, quem não tem amigos embaraçosos? – se Jekyll e Hyde não fossem a mesma pessoa. Eles constantemente se contradizem. E Hyde tem o irritante hábito de contradizer a si mesmo, argumentando que um dos direitos humanos fundamentais é o direito de voltar atrás.

– Na campanha, você disse que não toleraria o nepotismo no seu governo.

– Pois então? “Nepotismo” é quando se dá cargo a um sobrinho, “nepote”, do papa. E não tem nenhum sobrinho de papa no meu governo!

– Qual é sua posição quanto ao tratado de Paris?

– A de ontem ou a de amanhã?

O problema da candidatura dupla Jekyll/Hyde era que nunca se sabia qual dos dois ia aparecer – e continua não se sabendo.

Jekyll faz pronunciamentos perfeitamente sensatos, Hyde, ao contrário, pode chegar cuspindo fogo e assustando os vermelhos. Jekyll pode escolher um ministério no mínimo divertido, nada impede Hyde de preferir um gabinete maluco. Dizem que existe uma força-tarefa de prontidão em Brasília para garantir que Hyde não tenha muita liberdade para improvisar e dizer o quiser, e o seu lado Jekyll apareça mais.

Mas sempre há o perigo de que o sensato seja o Hyde disfarçado.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, ontem.

“Eu queria ter um banheiro”

07/01/2019 às 3:56 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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O ano é novo, mas os problemas são os mesmos.


“Eu queria ter um banheiro”

Estranho o titulo deste texto, mas bizarramente é um fragmento da fala de uma idosa brasileira ao discorrer sobre como viveu toda sua vida em um barraco sem nenhuma infraestrutura mínima. Ainda segundo ela, suas necessidades fisiológicas, bem como de sua família, eram feitas em áreas baldias ou em sacolas.
O pior é que esta situação, que se soma a tantas outras, não é uma mera e simples exceção, ela representa, segundo as mais recentes informações do IBGE, cerca de 55 milhões de brasileiros, isto mesmo que você leu, cerca de 55 milhões de brasileiros vivem na pobreza extrema. Para piorar a situação, deste montante, aproximadamente 13 milhões vivem na linha inferior à pobreza,resumindo, absurdamente ainda não podem ser considerados pobres.
Os dados apresentados pelo IBGE, infelizmente, não apresentam nenhuma novidade, pelo contrário, só reforçam nossa índole excludente, refletem como nossas políticas públicas são fracassadas, como os nos- sos políticos são mesquinhos e maus gestores, como nossas instituições fingem cumprir seus papéis, enfim, como continuamos a ser uma das nações mais ricas do mundo, que não consegue transformar esta riqueza em qualidade de vida para os seus convivas. Uma sociedade de corruptos e corruptores.
E não nos iludamos com os desumanizados 55 milhões de brasileiros, pois se somarmos a eles os demais que ganham até um salário mínimo, que é um salário abaixo de qualquer possibilidade de dignidade, a que retrato social do Brasil chegaremos?
Dizem que as mudanças nascem da base, do povo. Às vezes me pego pensando até que ponto é verdade tal afirmativa Um povo faminto, moribundo, sem sonhos, sem expectativa, sem estima, sem tudo aquilo que possibilite enxergar a própria existência e a partir dela tecer uma análise social, conseguirá ter “forças para lutar”?
A fome e demais mazelas dela provenientes abrem portas para o explorador, para o lacaio, para o usurpador, para o mal- feitor travestido de bonzinho; abrem portas infinitas para a ciranda da miséria que se perpetua para o bel-prazer daqueles que simplesmente se aproveitam e que são indiferentes ao sofrimento alheio.
Percebo que no Brasil não se quer mudar a cultura da pobreza, mas, pelo contrário, querem alimentá-la, transformando-a em orgulho, como se viver assim fosse a melhor coisa do mundo. Basta observar as maquiagens sociais que insistem em tapear e vangloriar a miséria. Como diria o trecho de uma música: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela em que eu nasci”.
Combater a injustiça, a fome, a miséria, transformar os locais inóspitos em locais onde seja possível viver dignamente, entre tantas outras coisas, isto, sim, deveria ser nossa maior bandeira. Um país rico é um país em que o povo vive com dignidade, vive realmente como um ser humano e que se reconhece como tal. O contrário não passa de um engodo cruel, uma mentira selvagem e um pesadelo sem fim.

(Walber Gonçalves de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 13.12.2018

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04/01/2019 às 11:10 | Publicado em Fotografias e desenhos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Bom lembrar disso em tempos tenebrosos !


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