“ENXERGO A OPERAÇÃO LAVA–JATO COMO UMA ÓPERA PARA O ENTRETENIMENTO DO POVO”

20/10/2017 às 3:06 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Muito boa e oportuna essa entrevista do Professor Moniz Bandeira.


“ENXERGO A OPERAÇÃO LAVA–JATO COMO UMA ÓPERA PARA O ENTRETENIMENTO DO POVO”

Com obras traduzidas para o inglês, espanhol, alemão, russo e mandarim, publicadas em dezenas de países, o intelectual baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira é, aos 81 anos, um dos pensadores brasileiros mais respeitados do mundo. Na semana em que a editora Civilização Brasileira relança dois clássicos do mestre em meio ao centenário da Revolução Russa, A TARDE publica entrevista concedida por e-mail da Alemanha, onde ele vive há muitos anos, sem jamais desviar o olhar lúcido do que acontece na pátria natal.

De que forma o sr. acompanha e participa do processo de tradução das suas obras para línguas tão diferentes do português, como o mandarim?

Esta não pude acompanhar, não falo esse idioma. Mas o tradutor foi um diplomata chinês, o conselheiro Shu Jianping. Ele consultava às vezes meu filho Egas, que fala, escreve e lê o mandarim. Formação do Império Americano é a minha obra traduzida para o mandarim e publicada pela Editora da Universidade de Renmin da China, uma das três maiores do país. Nos dois primeiros anos,saíram três edições. A terceira, ilustrada, é reimpressa aos milhares. Massó uma vez tive pagamento. Lá, livros são baratíssimos.

Qual o impacto na carreira de um intelectual ter obras traduzidas para tantos países?

Nenhum. Já estou a caminho de 82 anos, cheguei ao último nível da carreira, como professor titular da UnB, títulos e condecorações. As traduções e publicações nos países mostram, porém, que o Brasil não possui somente romancistas que se podem projetar internacionalmente; que possui também acadêmicos na área de ciências sociais capazes de escrever obras com interesse mundial, sobre outros países e não só sobre o próprio ou relações bilaterais. Tenho, como cientista político e historiador, obras sobre a formação do Império Americano, Oriente Médio, países do Cáucaso, reunificação alemã, Argentina e os Estados da Bacia do Prata, revolução cubana e América Latina, golpe no Chile etc. Esses temas, que desenvolvo em uma linha de pesquisa da causalidade da expansão imperial dos Estados Unidos, são de interesse universal, têm mercado, quando analisados e escritos com objetividade e baseados em pesquisas.

Toda essa expansão editorial do seu trabalho se traduz em retorno financeiro?

Apenas com a venda de livros acadêmicos, creio que ninguém poderia viver.

Entre os  livros que estão sendo traduzidos para outros idiomas destaca-se A Segunda Guerra Fria. Como o senhor avalia hoje as tensões entre EUA e Coreia do Norte, além da guerra na Síria, tendo EUA e Rússia em lados opostos?

Não creio na eclosão de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte. Só por um acidente afigura-me possível. A Coreia do Norte tem enorme poder de retaliar, ainda que não possuísse armas atômicas. Poderia retaliar os EUA, atacando a Coreia do Sul e o norte do Japão com mísseis convencionais, além das bases americanas na região e até causar colapso na economia dos EUA pelos vínculos entre esses países, e, consequentemente, na economia mundial. Os EUA não têm condições de saber onde todos os mísseis da Coreia do Norte se ocultam. E eles só atacam, como fizeram como Iraque e a Líbia,quandoos países se desarmam e não dispõem de poder de retaliação. Essa, aliás é a razão pela qual a Coreia trata de desenvolver mísseis e ogivas nucleares, quanto mais Washington ameaça. Não me parece que Kim Jong-un pretenda iniciar uma guerra, pois sabe que o país seria devastado. O objetivo principal dele é salvar o regime e a dinastia. Quanto à Síria, o presidente Baschar al-Assad, com o apoio diplomático e militar da Rússia, já ganhou, virtualmente, a guerra contra o Exército Islâmico e outros grupos terroristas armados e treinados pelos Estados Unidos.

Qual a avaliação que o senhor faz hoje das suas duas obras sobre a Revolução Russa com cerca de 50 anos e que estão sendo reapresentadas?

Essa 4ª edição de O Ano Vermelho é um livro inteiramente novo. Tive de reescrevê-lo totalmente. A 1ª edição tornara-se impublicável ao meu ver. Fora escrita nas piores condições da clandestinidade, em que me encontrava ao regressar do exílio no Uruguai. Era uma obra pioneira. Mas, desde então e, sobretudo, a partir anos 1980, ocorreu um avanço das pesquisas, com diversas dissertações e teses, inclusive na Bahia, sobre a greve geral de 1919, quando meu tio-avô, Antônio Ferrão Moniz de Aragão, como governador do Estado, apesar das fortes pressões, se recusou a reprimir o movimento e, juntamente com o líder socialista Agripino Nazareth, negociou com os patrões a jornada de oito horas de trabalho e outras reivindicações dos operários. E a greve triunfou. O outro livro – Lenin -Vida e Obra – apenas revisei e ampliei.

A Revolução Russa deixou algum legado positivo para a humanidade?

Claro!Otemordeque elase espraiasse levou o presidente Woodrow Wilson [EUA, 1913 a 1921] a inserir no Tratado de Versailles um capítulo sobre os direitos sociais, obrigatório para todos os signatários, o que reforçou a conquista das reivindicações pelas quais o proletariado do Ocidente havia tempo lutava. No Brasil, adensou a eclosão das greves ocorridas entre 1917 e 1919 em quase todos os Estados, o que resultou na legislação trabalhista, que atualmente o empresariado industrial e banqueiros tratam de derrogar. Há a mesma tentativa nos mais diversos países, sustentada pelo avanço tecnológico, como a robotização, digitalização, fabricação offshore etc. Não obstante o regime stalinista, que se dissolvia, o fim da União Soviética representou catástrofe, não só geopolítica, mas também social, ao abrir espaço para o neoliberalismo.

Uma mensagem do senhor ao jornalista Paulo Henrique Amorim, em que apontou intervenção militar como única saída para o Brasil,causou rebuliço. O senhor ainda defende esta ideia?

Não se trata de defender a ideia de intervenção militar, mas de prever, vislumbrar a perspectiva que se desdobra, diante da radical divisão da sociedade brasileira, a efervescência do ódio e da intolerância, como nunca antes houve. E aí está a crise institucional com o conflito de poderes, como ocorre entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal, enquanto a criminalidade se expande, com a desmoralização dos poderes públicos assenhoreados por chefes e membros de organização; o apodrecimento político do país e a falta de um projeto nacional. Porém, o problema não é só a corrupção, que é inerente à república presidencialista, com o financiamento eleitoral, distribuição política de cargos etc. A Operação Lava-Jato é uma ópera para o entretenimento do povo, e na qual o juiz Sérgio Moro e diversos procuradores da república parecem esperar contrato para papel de heróis de Hollywood. Entrementes, o presidente de fato, Michel Temer, entrega o patrimônio nacional aos estrangeiros em termos de sell off, como promoção. E a situação econômica e política cada vez mais se complica. Investimentos estrangeiros não afluem para países em recessão, a não ser para comprar os ativos existentes a baixo custo. Assim, todas as condições apontam para uma intervenção militar. Mas as Forças Armadas até hoje sofrem o desgaste do golpe de 1964 e da ditadura que impôs, e o Alto Comando está dividido. E daí que não desejam entrar em uma aventura. Todos sabem como um golpe inicia, mas não como pode terminar. Sobretudo nas atuais circunstâncias em que se encontra o Brasil.

E neste momento de redefinição (ou indefinição) política e econômica no Brasil, qual a expectativa do senhor para os próximos anos no país? O senhor tem otimismo?

O Brasil chegou a um ponto que não permite qualquer previsão. A imagem no exterior é a de um país que se afunda na lama. É atualmente visto como republiqueta. Muitos estudantes brasileiros escrevem-me perguntando sobre as possibilidades de estudar na Alemanha. Querem sair do Brasil de qualquer jeito. Não veem futuro. Como pode alguém ser otimista?

O senhor está com projeto de escrever alguma nova obra?

Não. Cada obra que escrevo esgota minha saúde, preciso descansar.Querovoltar a reler romances, peças, poemas,como fazia na adolescência, na Bahia de outrora, onde nasci e me criei, antes de voar pelo mundo e estacionar na Alemanha, pátria de Goethe e de Schiller, de Marx e Engels.

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(Luiz Lassserre)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 17.10.2017

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Resumo do Singularity University Global Summit 2017 em São Francisco, CA/USA

17/10/2017 às 3:46 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Novos tempos. Simplesmente assustador ! Recebi via zapzap de um amigo.

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Resumo do Singularity University Global Summit 2017 em São Francisco, CA/USA

O evento discutiu o futuro dos negócios, da tecnologia e da humanidade.

**Para profundas reflexões**

*Singularity University Global Summit 2017 – resumo do primeito dia, em 10 itens:*

1. Foram 1.600 participantes do mundo inteiro. 70% dos quais são estrangeiros. A maior delegação foi a do Brasil.

2. Em 2030, mil dólares comprarão o poder computacional equivalente ao cérebro humano. Em 2050, mil dólares comprarão o poder computacional equivalente a todos os cérebros humanos juntos.

3. Em 2010 1.8 bilhão de pessoas estavam conectadas à internet. Em 2017 são 3 bi. Entre 2022 e 2025 será o mundo inteiro. Com mais conexões, mais oportunidades, mais gênios.

4. As próximas duas décadas serão diferentes de qualquer coisa que vivemos nos últimos cem anos.

5. Podemos prever empregos que serão absorvidos pela tecnologia. Mas não podemos prever quais empregos vão surgir a partir da tecnologia. A dificuldade é a velocidade com que isso está acontecendo.

6. 130 milhões de pessoas no mundo estão satisfeitas com o seu trabalho. Parece muito, mas em termos globais, isso equivale a quase nada.

7. Veículos elétricos têm 90% menos _moving parts_ do que veículos tradicionais.

8. Na China todos os taxis serão elétricos até 2020.

9. O custo de um carro elétrico vai reduzir drasticamente nos próximos 5 anos. Razões: demanda e abundância.

10. Esqueçam os _wearables_. Estamos entrando na era dos _insideables_.

*Singularity University Global Summit 2017 – resumo do segundo dia em 10 itens:*

1. _Human life is a software engineering problem_.

2. As ferramentas do nosso tempo: _big data _e _machine learning_.

3. 3 bilhões de pessoas vivem com menos de 2,5 dólares por dia. 80% da humanidade vive com menos de 10 dólares por dia.

4. 90% das enfermeiras que usam o Watson da IBM seguem as suas recomendações.

5. Automação e inteligência artificial criarão empregos. Posso tornar qualquer coisa inteligente usando inteligência artificial e ganhar dinheiro com isso. Os Estados Unidos são o país mais automatizado do mundo e não houve perda de empregos por isso.

6. No futuro teremos muito mais máquinas do que humanos.

7. Ensinamos da mesma forma há cem anos. O sistema educacional é resistente a uma mudança disruptiva. Que tal _just in time education_?

8. Nossas premissas sobre o mundo podem limitar nosso pensamento. E isso faz toda a diferença.

9. Organizações não mudam até que todas as pessoas mudem.

10. Líderes exponenciais não tentam mudar o mundo. Eles tentam mudar a si mesmos.

*Singularity University Global Summit 2017 – resumo do terceiro e último dia.*

Desta vez não foi possível resumir em 10, mas sim em 20 itens. Estes três _posts_, um por dia, foram uma tentativa de sintetizar essa chuva de informações e a disrupção.

1. Em 2020, 85% das interações com clientes será através de máquinas. E essa será uma das formas de se diferenciar dos concorrentes.

2. 75% dos _millennials_ consideram a comunicação através de mensagens de texto uma opção de relacionamento com o cliente e têm duas vezes mais chance de se manter fiéis à empresas que oferecerem essa forma de comunicação com eles.

3. 30% dos _millennials_ não possuem o ícone do telefone na tela principal dos seus _smartphones_.

4. Empresas hoje já produzem carne de frango e gado sem matar nenhum animal. A partir da célula animal.

5. 20% de todas as buscas em dispositivos móveis já são feitas por voz.

6. Veículos e objetos autônomos vão mudar as cidades profundamente.

7. Criatividade, empatia e coragem são as habilidades do futuro.

8. As instituições de ensino que existem hoje, em sua maioria, foram criadas com pressupostos de 60 anos atrás. O ensino médio é a chave para mudar todo o sistema educacional.

9. O principal problema da educação é cultural. Há cem anos é igual. Muitos falam de customizar ensino para crianças, mas a chave é customizar ensino também para os professores. Um a um. Até a mudança ocorrer.

10. O futuro da educação é _learning by doing_.

11. Vamos mudar a lógica de “vender carros” para “vender serviços de mobilidade”.

12. O mundo hoje está fazendo a transição da era industrial para a digital da mesma forma que anos atrás fazia da era agrícola para a industrial. Mas MUITO mais rápido.

13. Existem 2.6 bilhões de _smartphones_ no mundo. E 9 vezes mais dados somente nos últimos DOIS anos.

14. As pessoas vão aprender dentro de uma lógica de “_nano-learning_”, e não de um longo investimento em educação para usar somente um percentual mínimo daquilo que se aprende. Todos terão um portfólio de trabalho, que será nano-desenvolvido.

15. Os maiores problemas do mundo são também as maiores oportunidades de negócio.

16. Robôs serão considerados uma opção de força de trabalho. Assim como hoje consideramos funcionários, terceiros, _freelances_ e a _crowd_. Simples assim.

17. Ser exponencial é atualizar e se atualizar de tudo constantemente.

18. O Vale do Silício tem uma palavra para descrever fracasso. Se chama experiência.

19. Hoje existe abundância de capital, conhecimento, habilidades e tecnologia. Não há desculpa para não fazer as coisas. Não há limites. A única limitação é a nossa convicção e comprometimento de simplesmente ir e fazer.

20. Em poucos anos todos trabalharão para aprender, ao invés de aprender para trabalhar.

Reforma Tributária, uma outra visão

10/10/2017 às 6:30 | Publicado em Zuniversitas | Deixe um comentário
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Por uma Reforma Tributária que foque na Justiça Fiscal, sem isso não vale a pena nenhuma reforma !

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UM ESTADO CORRUPTO

Corrupção: ato de corromper, que seja: alterar para um estado ética ou moralmente negativo, diz o dicionário Michaelis. Os R$ 51 milhões de Geddel, em dinheiro vivíssimo, é a sua face mais explícita. Aécio Neves, em pleno exercício do mandato com sua mala de R$ 2 milhões, e Michel Temer, sustentando-se na presidência com seus R$ 500 mil entregues a Rocha Loures, são a lamentável constatação de que nem todos são punidos.

Mas se chamarem a propina de comissão e aprovarem uma lei que legalize as malas de dinheiro, deixa de ser corrupção? Observar de perto o nosso regime tributário e o sistema de dívida pública é ter a convicção de que a corrupção está institucionalizada em nosso país há muito tempo e quase ninguém percebeu. Não é malinha, é papo de muitos bilhões de reais.

Se nós, reles mortais, não pagarmos o Imposto de Renda, sabemos a força do estado sob o nosso patrimônio. Estaremos fritos. Mas em 1995 os empresários endinheirados, com capacidade de comprar votos no Congresso, puseram na lei que não precisariam nunca mais pagar ao Leão. Muito dinheiro público deixou de ser arrecadado e ficou nos bolsos de quem não devia, porque justo não era. Só em 2017, R$ 60 bilhões. Criamos uma aberração em que só no Brasil o IR é regressivo: pagam os pobres e se isentam os ricos. Eticamente repugnante, moralmente indefensável.

Pagar imposto não é o forte dos grandes empresários do país. Sonegam deliberadamente – segundo a Fazenda, mais de R$ 500 bi ao ano. Sabem que o Congresso a cada três anos lhes dará um Refis para pagar com descontos, isenção de juros e multa. Muito mais barato que pagar em dia! Há ainda as anistias tributárias bilionárias que o Congresso aprova de vez em sempre.

Reduzir a desigualdade social com esse estado corrupto em funcionamento foi um milagre, fenômeno que só o presidente Lula consegue explicar. Qualquer candidato comprometido em colocar o país nos trilhos terá de deixar claro o que pretende fazer com o nosso sistema tributário.

A reforma tributária em tramitação na Câmara tem o mérito de pôr fim à guerra fiscal e ao emaranhado de tributos, taxas e contribuições que encarecem a produ- ção e abrem brechas para a elisão fiscal: hoje, uma contestação tributária pode demorar mais de dez anos para ser julgada. Há quase R$ 1 trilhão parado nas delegacias da Receita e no Carf. Com a instituição de um imposto único e nacional sobre o consumo, o IVA, será mais fácil ao longo dos anos onerar menos o consumo e mais a renda.

Precisamos ir além, ajustar o imposto sobre as heranças à realidade internacional, regulamentar o imposto sobre grandes fortunas, criar novas faixas e acabar com a isenção do IR sobre dividendos. Esse debate é definidor de nosso futuro e precisa ser feito nas urnas.

(Jorge Solla)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 15.09.2017

Traidores

26/09/2017 às 3:46 | Publicado em Zuniversitas | Deixe um comentário
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Crônica recente de Veríssimo. Mais uma aula de História e Política.

 


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Immanuel Wallerstein, um dos bons pensadores da esquerda americana, escreveu sobre a distância entre o conceito e a realidade do papel da burguesia na história do capitalismo. Segundo Wallerstein, a “traição da burguesia”, quando não cumpre o papel que lhe é atribuído no que chama de mito dominante do marxismo clássico, não é uma anomalia mas uma constante. A realidade que desmente o conceito é que a burguesia só fez o que tinha que fazer num determinado período histórico, quando acabou com o feudalismo, e que principalmente a partir do século dezenove não faz outra coisa senão frustrar os que esperavam que ela terminasse o serviço, eliminando qualquer ideia de separação entre servos e senhores hereditários.

Segundo Wallerstein, a industrialização, o progresso científico e a acumulação de riqueza não só consagraram o individualismo empreendedor como criaram novas formas de servidão. E a burguesia não revelou outra pretensão a não ser a de se aristocratizar, ou voltar ao idílico mundo dos feudos, nem que sejam só sítios com cerca eletrificada contra aldeões revoltados. Quando a Terceira Internacional concluiu que, em muitos casos, o proletariado precisava apressar a revolução burguesa, sem a qual a revolução socialista seria impossível, ainda se apegava ao mito.Confiava em que todos cumpririam a sua parte no processo inevitável, mesmo que alguns se atrasassem um pouco. A burguesia só traiu mesmo uma expectativa errada.

No Brasil, este cemitério de conceitos frustrados, tudo está atrasado, inclusive a desilusão com a burguesia. Esta ainda não fez nem a sua primeira entrada em cena, a julgar pela persistência do feudalismo nas nossas relações sociais, mas ainda se confia que ela desempenhará seu papel histórico, cedo ou tarde. Isso explica o sucesso entre nós das revoluções retóricas que não mudam nada, e a proliferação de salvadores de ocasião virando a expectativa marxista de pernas para o ar e acreditando que a burguesia possa fazer a revolução proletária por ela. Vivemos numa certa confusão de atribuições desde a nossa inédita secessão em família, quando Dom Pedro declarou a nossa independência de Portugal e do seu pai. O fato da própria aristocracia ser obrigada a fazer o papel da burguesia no nosso ato inaugural nos acostumou mal: desde então vivemos nesta secreta esperança que o nosso patriciado resolva todos os nossos problemas, suicidando-se.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, 24.09.2017

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