Doutor é quem tem doutorado

08/07/2020 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Diante deste excelente artigo do Professor Carlos Zacarias (História/UFBA), peço permissão e me atrevo de antemão a fazer alguns comentários de minha experiência acadêmica. No artigo o Professor nos explica o atual estágio dessa questão no mundo acadêmico e, óbvio, contextualiza destrinchando o que ocorre com o curriculum de alguns ministros (com eme minúsculo mesmo) do atual DESgoverno do Brasil. Com todo o respeito, eu considero Doutor aquele que tem um Doutorado e também aquele que se formou em Medicina e fez a obrigatória residência. Antigamente, me lembro bem, para ser fazer um Doutorado, a tese proposta tinha que ser algo inédito no campo do conhecimento humano ou da ciência. Pelo que constatamos hoje, esse requisito não se aplica mais, sem nenhum demérito aos que conseguiram, com muito esforço, obter o título atualmente. Apenas como curiosidade, ainda quando estudei Direito na UnB fui informado que há uma lei, de 1827 portanto da época do Império de D. Pedro I, que determina que os possuidores de diploma de Direito devem ser chamados de Doutores. Deve ser por isso que alguns advogados são assim tratados até hoje…

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Doutor é quem tem doutorado

A condição para adquirir um título de doutorado, de onde se emite um diploma, é escrever e defender uma tese frente a uma banca de arguição, composta, normalmente, por cinco membros, com a obrigatoriedade de haver membros externos ao programa de pós-graduação em que a tese é apresentada. Defesas de tese não são apenas ritos de passagem, mas momentos fundamentais, em que o doutorando apresenta o resultado de anos de pesquisa e avaliadores apontam erros, inconsistências e eventuais fragilidades do trabalho, ao que o doutorando deve demonstrar que suas hipóteses, transformadas em tese, se sustentam pelas evidências que foram arroladas e passam a se constituir em provas de efetividade científica.

Um doutorado dura no mínimo quatro anos e vem depois do mestrado, que tem duração de dois anos ou um pouco mais, e coroa a carreira acadêmica de um pesquisador, dizendo que ele está pronto para seguir produzindo ciência. Com doutorado, um pesquisador pode pleitear o ingresso numa instituição pública através de concorridos concursos (algumas áreas ainda aceitam mestres, mas isso é cada vez mais raro). Numa instituição pública, um professor-doutor, que é, sobretudo, um investigador, um cientista, pode pleitear um período de licença de um ano para cursar um pós-doutorado e desenvolver uma pesquisa específica, mas não há outro título depois do doutorado. Pessoas com doutorado não são necessariamente geniais, mas são pesquisadores que cumpriram uma trajetória árdua que exige denodo e abnegação, o que se percebe nas seções de agradecimentos das teses, onde se fala de renúncias, noites mal dormidas e das dificuldades enfrentadas.

Há no Brasil de hoje milhares de pessoas que concluíram o doutorado, o que demonstra todo esforço do país que por anos a fio se empenhou em oferecer alta qualificação a um pessoal que devia estar trabalhando, principalmente, nas universidades. Muitos desses doutores, que demandaram investimentos de toda a sociedade, estão sem ocupação devido ao desinvestimento em educação ocorrido nos últimos anos, que o governo Bolsonaro tem aprofundado.

A celeuma em torno do falso doutorado do ex-futuro ministro Carlos Alberto Decotelli, que sucedeu a polêmicas semelhantes quanto às titulações de Ricardo Salles, Damares e Weintraub, se não nos serve para confirmar que este governo tem desprezo pela ciência, mesmo dando imenso valor a títulos pompas que sequer existem, nos sugere que parte do ódio obscurantista e anti-intelectual do bolsonarismo também é fruto de recalque e ressentimento.

Das lições que extraímos, além da confirmação que extremistas de direita são mitômanos, a noção de que ter doutorado ou títulos é algo importante, mesmo sem ser essencial para quem pleiteia um cargo de ministro. Neste caso, não são os títulos, mas o compromisso com a ciência, o conhecimento e a educação aquilo que efetivamente importa.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 03.07.2020

Pátria que pariu !

06/07/2020 às 3:43 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Título forte. Muito bom esse artigo do advogado Silas Lopes. Como ele, dessa pátria que a nova (velhíssima) direita ama e defende, eu quero é distância, muita distância !

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Pátria que pariu !

Pouca coisa enche mais a boca da “nova direita” brasileira que o patriotismo. A direita cujos próceres são o capitão recordista de viagens aos EUA em primeiro ano de mandato presidencial; o filósofo ex-astrólogo que vive na Virgínia (EUA) e de lá provê teses e palavrões reverberados no Brasil; e o empresário que tornou uma réplica da estátua da liberdade o maior monumento brasileiro já erguido. São esses conservadores, segundo eles mesmos, os baluartes do nacionalismo, a última trincheira de resistência patriótica contra os projetos globalistas comunistas, islamitas, chinesistas etc…

Cabe, porém, a dúvida: A que pátria esses nacionalistas juram amor e defesa? O quê, de fato, a nova direita chama de país? Qual parte do Brasil, afinal, eles protegerão de tudo e de todos?

Caio Coppola nasceu de Arruda Miranda, mas prefere o sobrenome artístico, mais internacional. Sara Fernanda Giromini virou Sara Winter, homônima de ex-nazifascista inglesa – “triste coincidência”, diz a líder dos “300 pelo Brasil”. Já Fernando Silva Bispo (partido Patriota) optou se chamar Holiday. Em comum, o discurso nacionalista; a expoência como nova Direita; e a adoção de um nome menos tupiniquim, melhor para o marketing.

Uma nação se constitui de Governo, Território e povo. Qual deles faz arfar o patriota brasileiro?

A fala raivosa contra o poder constituído – do STF ao Ibama; do Congresso ao Detran – deixa claro que não é pelo governo que essa direita chora, cantando o hino. A “boiada” que querem passar, na distração da Covid, dá pinta de não ser pela Terra Brasilis que eles vibram e alopram. Definitivamente, a paixão deles também não é o povo.

À nova direita, carnaval é golden shower; samba/funk é lixo/crime; dá ódio ouvir falar em “povos indígenas”; quilombola se pesa em arrobas; cinco/sete (talvez trinta) mil idosos até podem morrer. Nossa história, para eles, deve ser reescrita. Jorge Amado, Chico Buarque e Paulo Freire vão para a vala: como marxistas, passam má imagem do Brasil que eles amam. A arte brasileira – dizem eles, ao som de Wagner – deve ser nacionalista e heroica, como nunca foi.

A nova direita (que nada tem de “nova” e tampouco de “direita”) não gosta do governo, não gosta da terra e tem horror ao povo. Mas insiste que ama o Brasil, um Brasil idílico, moralista, antivacina, preso na idade média e na Terra plana. Um Brasil militar, ruralista, monárquico (tem até príncipe!), com latifúndio, educação moral e cívica, mão de obra barata e sem muita ciência ou jornalismo. Um Brasil prostrado às potências do mundo e disposto, como anteviu Chico, a cumprir seu fado e se tornar um grande império colonial.

Dessa pátria que a nova direita ama e defende, eu só quero distância.

(Silas Lopes)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 03.07.2020

As bizarrices do sexo no oceano

04/07/2020 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Muito interessante esse artigo. As recomendações são importantes. Não deixem de ver o vídeo ao final !


As bizarrices do sexo no oceano

O oceano é provavelmente o maior motel que existe: o tempo todo, milhões de espécies fazem sexo nele. E esse sexo é bem bizarro e diferente do que acontece em terra firme.

Talvez mais importante, nós (sim, sempre os seres humanos com suas intrusões) acabamos impactando toda essa ação sensual e isso pode ser péssimo para o meio ambiente.

Em uma excelente (e hilária) palestra no formato TED Talk, a bióloga marinha Marah J. Hardt contou algumas curiosidades sobre a maluca vida sexual oceânica, explicou como as pessoas podem afetá-la e o que podemos fazer para proteger as futuras gerações de peixes.

Mudança de sexo

É mais provável que você não saiba disso, mas diversas espécies oceânicas simplesmente mudam de sexo. Estilo “cansei de ser fêmea, agora serei macho” e vice-versa.

Por exemplo, o peixe-papagaio. Todo peixe-papagaio nasce fêmea, desse jeito:

Mais tarde na vida, quando já estiver de saco cheio de lutar contra o patriarcado, o peixe pode simplesmente fazer a transição para macho e ficar assim:

Como bem disse Hardt, não se trata apenas de uma espetacular troca de guarda-roupa. O corpo do peixe reabsorve seus ovários e desenvolve testículos, sem necessidade de cirurgia de troca de sexo. Vai me dizer que isso não é impressionante?

E o papagaio não está sozinho nesta. Ostras, garoupas, camarões e peixes-palhaços são somente mais alguns poucos exemplos de animais que podem trocar de sexo quando necessário.

Este último, famoso por sua aparição na animação “Procurando Nemo”, nasce sempre macho e pode se tornar fêmea mais tarde na vida. Ou seja, na vida real, quando a mãe de Nemo morresse, seu pai, Marlin, provavelmente teria virado Marlene. Você decide se quer perdoar a Pixar por essa licença poética com o enredo ou não.

Bom, já vimos que a mudança de sexo no oceano pode acontecer em qualquer direção e, em certos casos, até diversas vezes. Mas essa é só uma de diversas estratégias de embasbacar que os animais usam para se reproduzirem no oceano.

Chuva de ouro

Vamos pegar a lagosta-do-Maine. Ela é bem básica: durante a época do acasalamento, procura os maiores machos para fazer amor. Só que eles são muito agressivos e atacam qualquer um que se aproxime, macho ou fêmea (ai ai ai…).

Curiosamente, o melhor período para a fêmea se acasalar é imediatamente após a muda, quando ela perde a carapaça, que é também quando ela está mais vulnerável. Como se aproximar desse cara agressivo, então?

Borrifar, repetidamente, sua urina na cara dele. Sim, chuva de ouro rola até no fundo do mar, e funciona perfeitamente com os mais machões possíveis. Ao que tudo indica, o xixi é uma poção do amor muito poderosa.

Convenientemente, a bexiga da lagosta fica bem acima do cérebro, e ela usa dois esguichos abaixo dos olhos para lançar um fluxo de urina assim que o macho sai de sua caverna (e depois corre de lá como uma louca, claro).

Alguns dias dessa dose diária são suficientes para seu cheiro ter um efeito transformador. De agressivo, o macho se transforma num amante gentil. Dentro de uma semana, ele convida a fêmea para sua caverna e o resto você já sabe.

Você foi eliminado (menos seu testículo, dá ele aqui)

A lagosta é uma espécie que conhecemos bem, pois vive no raso, perto da praia. Se esse tipo de safadeza ocorre tão perto de nós, o que será que acontece lá no fundão do mar, onde tudo é mais difícil e estratégias completamente doidas de sobrevivência existem?

Por exemplo, o peixe-pescador-das-profundezas vive a cerca de mil metros de profundidade em águas escuríssimas. O macho dessa espécie nasce sem a capacidade de se alimentar sozinho. Ou seja, para sobreviver, ele precisa de uma fêmea.

Essa fêmea é nada menos do que dez vezes maior do que o macho. Ela também libera um forte feromônio para atrai-lo.

Isso funciona perfeitamente: o pequeno macho já está nadando rapidamente em meio a essas águas escuras farejando compulsivamente seu caminho até uma fêmea. Quando a encontra, ele lhe dá uma mordida amorosa.

E é aí que a coisa fica realmente bizarra. Os dois meio que se “juntam”. A mordida amorosa estimula uma reação química em que a mandíbula do macho começa a se desintegrar e os dois corpos a se fundir. O sistema circulatório deles se entrelaça, e todos os órgãos internos do macho começam a se dissolver – exceto os testículos.

É isso mesmo que você entendeu: no fim das contas, o macho vira praticamente uma fábrica anexa permanente de esperma, sob demanda, para a fêmea. É um sistema muito eficiente.

(Por que será que não existe essa opção entre os seres humanos, né? Talvez uma falha da evolução).

Conservação

É importante observar que toda essa informação sexy não serve apenas para você lançar alguns fatos curiosos nas mesas de bar.

Quer você perceba isso ou não, precisamos do oceano para muitas coisas, e entender como as espécies que vivem nele se reproduzem é essencial para conservá-lo.

“Dependemos dos peixes para ajudar a alimentar mais de 2 bilhões de pessoas no planeta. Precisamos de milhões de ostras e corais para construir recifes gigantes que protejam nossas praias de tempestades e da elevação das marés. Dependemos de compostos medicinais presentes nos animais marinhos para combater o câncer e outras doenças. E, para muitos de nós, é na diversidade e na beleza dos oceanos que buscamos o lazer, o relaxamento e nossa herança cultural. Para continuarmos a usufruir da abundância que a vida marinha nos provê, o peixe, o coral e o camarão de hoje precisam produzir o peixe, o camarão e o coral de amanhã”, afirma Hardt.

Para que as espécies continuem se reproduzindo, elas precisam fazer muito sexo e até pouco tempo atrás não tínhamos ideia de como era o sexo no mar.

É muito difícil estudá-lo, mas, graças a avanços científicos e tecnológicos, hoje sabemos mais do que antes. E sabemos principalmente que nossas ações estão causando verdadeiros problemas no vai-e-vem amoroso dos mares.

Lembra daqueles peixes que trocam de sexo? Em muitos lugares do mundo, há regras pesqueiras que definem um tamanho mínimo para o peixe que pode ser pescado. Ou seja, é proibido pegar os pequenininhos. Isso permite que os bebês cresçam e se reproduzam antes de serem pegos.

Só que no caso do peixe-papagaio, ou de qualquer um que mude de sexo, pescar o maior significa pescar todos os machos. Para a fêmea, isso dificulta encontrar um parceiro, ou a força a mudar de sexo mais cedo, em um tamanho menor. As duas situações podem resultar em menos bebês no futuro.

Ou seja, o desafio para definir regras de pesca não é pensar soluções que favoreçam simplesmente o sexo, mas sim saber quais soluções aplicar para quais espécies, porque mesmo animais que conhecemos muito bem nos surpreendem quando se trata de sua vida sexual.

Lembra da lagosta adepta à chuva de ouro? Sua urina carrega um sinal químico crítico que só funciona porque consegue passar através da água do mar. Acontece que a mudança climática está tornando nossos oceanos mais ácidos e isso pode atrapalhar a mensagem (ou danificar os receptores olfativos dos machos).

E se você pensa que só atrapalhamos a reprodução marinha sem querer, não é bem assim.

Três anos atrás, descobrimos uma nova espécie de polvo das profundezas em que as fêmeas colocam seus ovos em esponjas grudadas em pedras que ficam a mais de quatro quilômetros de profundidade. Essas rochas contêm minerais raros, e já existem empresas construindo escavadeiras capazes de extrai-los. Acontece que não virão somente os minerais, não é mesmo? Mas também todas as esponjas e os ovos dos polvos.

O que eu posso fazer para ajudar ?

Cientes ou não disso, estamos impedindo o sexo e a reprodução no fundo do mar.

“Estamos muito mais conectados ao oceano do que imaginamos, não importa onde vivemos. E esse nível de intimidade requer um novo relacionamento com o oceano. Um que reconheça e respeite a enorme diversidade da vida e suas limitações. Por ser um relacionamento de mão dupla, os oceanos somente poderão continuar a prover para nós se, em retorno, resguardarmos esta força fundamental da vida no mar: sexo e reprodução. Assim, como em qualquer relacionamento, temos de adotar mudanças para que a parceria funcione”, pediu Hardt.

Aqui vão algumas dicas do que você pode fazer para ajudar, mesmo que minimamente, a conservar a saúde do oceano:

  • Quando quiser comer frutos do mar, prefira produtos que venham de pesca sustentável ou espécies criadas em cativeiro que sejam locais e de um nível baixo na cadeia alimentar, como ostras, mariscos, mexilhões e peixinhos como a cavala. Estes se reproduzem loucamente e, com bom manejo, resistem bem à pressão pesqueira;
  • Repense os produtos químicos que você usa para tomar banho, limpar a casa e cuidar de seus gramados. Todos acabam sendo levados para o mar e atrapalham a química natural do oceano;
  • Nas comunidades onde você vive, nos lugares onde trabalha e no país em que vota, tenha e exija atitudes corajosas sobre a mudança climática agora.

Obviamente, a indústria também tem de fazer seu papel e adotar uma abordagem preventiva, protegendo a atividade sexual onde sabemos que ela existe e evitando danos nos casos em que não sabemos o suficiente, como no mar profundo.

E o governo precisa lutar pelas soluções que sabemos que ainda existem para a mudança climática. O tempo está correndo para todos os animais que dependem da temperatura e da química certa para um bom desempenho sexual.

Enquanto esse é um problema que parece enorme como o próprio oceano, lembre-se de que a natureza está do nosso lado: os animais querem se reproduzir. Alguns tubarões e arraias fêmeas, quando não conseguem encontrar um macho, se reproduzem sozinhas, coisa que só a Virgem Maria conseguiu aqui na Terra. Fascinante. Infelizmente, essa estratégia não salva as espécies a longo prazo, uma vez que o sexo é necessário para a diversidade genética, mas a tática ganha tempo para a população.

Isso mostra que os animais estão fazendo sua parte. Imaginem se fizéssemos a nossa?

Vídeo

Aos 17 anos, Marah Hardt deixou o ensino médio mais cedo para estudar tubarões nas Bahamas. Lá, ela percebeu que nossos oceanos enfrentam sérios desafios e que os cientistas são (geralmente) péssimos em comunicá-los.

Foi isso que inspirou sua carreira em conservação e comunicação marinha. Hoje, Hardt, que é doutora em ciências marinhas, trabalha em soluções para pesca excessiva, mudanças climáticas e a crise dos recifes de coral.

Ela é fundadora e CEO da OceanInk e diretora do Future of Fish, bem como autora do livro “Sex in the Sea” (2015).

Você pode conferir sua palestra na íntegra em inglês com legendas abaixo:

(Natasha Romanzoti)

FONTEhttps://hypescience.com/sexo-no-oceano-e-mais-bizarro-do-que-voce-pensa/

Brasil, colônia digital

03/07/2020 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Sérgio Amadeu, muito bom ! Quando eu ainda estava na ativa, no final dos meus emails de trabalho colocava essa frase dele: “Na era informacional, quanto mais se compartilha o conhecimento, mais ele cresce. Os softwares são os principais intermediários da inteligência humana na era da informação. Garantir seu compartilhamento é essencial para a construção de uma sociedade livre democrática e socialmente justa.”. Compartilho hoje esse excelente artigo dele. Trata-se de importante alerta. Confiram !

Exclamacao


Brasil, colônia digital SergioAmadeu

As corporações de tecnologia exploram a experiência humana como matéria-prima gratuita. Tratam os dados comportamentais como sua propriedade, numa dinâmica de usurpação.

No dia 27 de maio de 2020, o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, MCTIC, assinou um acordo com a empresa norte-americana Cisco com o objetivo alegado de acelerar a chamada transformação digital no Brasil. Sem consultar universidades, institutos de pesquisa, nem especialistas na área, o atual governo divulgou que “a Cisco vai trabalhar junto com o MCTIC no desenvolvimento de uma plataforma digital inteligente para dar suporte ao monitoramento, gestão e definição de políticas públicas no país”. Desconsiderando o conhecimento acumulado em políticas públicas e em tecnologias digitais nas instituições brasileiras, o governo Bolsonaro preferiu acelerar nossa transformação em uma colônia digital.

É possível observar, durante a pandemia, a ampliação da presença das corporações e plataformas digitais que lucram extraindo e manipulando dados pessoais obtidos na coleta dos rastros digitais e de informações sobre o comportamento de usuários de seus serviços e produtos. As autoridades brasileiras agiram como se não existisse outro caminho exceto entregar os dados de nossa população às empresas que buscam converter os fluxos de nossas vidas em uma torrente de dados a ser tratados. Essas corporações também chamadas de Big Techs, ou plataformas digitais, exercem seu poder planetário extraindo, armazenando e manipulando dados pessoais.

Enquanto a atividade econômica medida pelo PIB dos 37 países que integram a OCDE caiu 0,8% no primeiro trimestre de 2020 em relação a 2019 e o PIB brasileiro caiu 0,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, as grandes corporações de tecnologia que vivem principalmente da coleta, armazenamento e processamento de dados pessoais, aumentaram suas vendas. Elas converteram a pandemia em um momento de ampliação dos negócios. A crise humanitária e sanitária ampliou o cenário para a obtenção de mais informações das populações do planeta.

Os lucros do Facebook no primeiro trimestre de 2020 aumentaram 102% em relação ao mesmo período do ano anterior. O faturamento da empresa de Zuckerberg foi de US$ 17,7 bilhões nos primeiros três meses desse ano, sendo 18% superior ao mesmo período de 2019. O Facebook é dono da maior rede de relacionamento online do planeta, também do Instagram e do WhatsApp. Na pandemia os três produtos ultrapassaram três bilhões de usuários.

O Google Meet divulgou que obteve três milhões de usuários novos por dia, enquanto a pandemia avançava pelos continentes. O Grupo Alphabet – controlador do Google, Youtube e outras empresas de tecnologia – faturou US$ 42,1 bilhões nos primeiros três meses de 2020, sendo 13% superior ao período similar do ano anterior. O Google Cloud e seu G Suite avançou no mercado corporativo. Só o faturamento da nuvem do grupo Alphabet teve aumento de 52% atingindo US$ 2,8 bilhões.

Já a Microsoft aumentou seu faturamento no período em 13,6% em relação ao primeiro trimestre do ano anterior atingindo US$ 33 bilhões. Os serviços de computação em nuvem da Microsoft faturaram US$ 10,9 bilhões puxados pela plataforma Azure que aumentou sua receita em 59%. Para disputar o mercado de ferramentas de comunicação a Microsoft apresentou o Teams que avançou na pandemia e superou 75 milhões de usuários.

A empresa Amazon faturou no primeiro trimestre de 2020 a quantia de US$ 75 bilhões, crescendo  26% em comparação com o mesmo período do ano passado. Apesar a elevação dos custos de logística e segurança durante a pandemia, a empresa de Jeff Bezos, ainda sim, obteve o lucro líquido de US$ 2,5 bilhões. Seus serviços de nuvem chamados Amazon Web Services (AWS) lidera o mercado de computação em nuvem.

Note que as grandes corporações de tecnologia atuam como novos colonizadores. Utilizam sua capacidade tecnológica para oferecer dispositivos e interfaces gratuitas ou a baixíssimo custo para fidelizar populações inteiras às suas infraestruturas de extração de dados. Nas plataformas digitais, mais do que “melhorar nossa experiência”, um excedente comportamental é consolidado em dados que são extraídos como se fossem recursos naturais. Todavia, dados dependem de projetos criados para converter determinada ação em algo que possa ser quantificado. Uma vez inventados, os dispositivos de coleta de certa métrica – tal como o número dos meus amigos em uma rede de relacionamento, meus “likes”, o tempo exato que observo uma página da web ou um perfil na rede social – geram dados que são capturados e armazenados pelas corporações.

A pesquisadora Shoshana Zuboff afirmou que as corporações de tecnologia passaram a reivindicar o direito de explorar a experiência humana como matéria-prima gratuita, pleitear o direito de traduzir nossas ações em dados comportamentais, de reclamar a possibilidade de armazenar os dados sobre as pessoas, muitas vezes sem que elas saibam, e de exercer a propriedade sobre os dados coletados e sobre os resultados de seu processamento e análise, bem como, sobre o conhecimento futuro derivado dessa dinâmica de usurpação. Zuboff denominou esse processo de “capitalismo de vigilância”. Considero que ele seria mais bem caracterizado como um processo de extração e concentração de riqueza em gigantescas corporações tecnológicas sediadas em poucos países capitalistas em uma fase de neoliberalismo profundo que se tornou neocolonial. Uma nova colonização da vida a partir de seu controle pelos dados.

Inspirados nas teorias decoloniais e pós-coloniais, principalmente da América Latina, os pesquisadores Nick Couldry e Ulises Mejias trabalharam o conceito de colonialismo de dados para definir um ordenamento emergente que visa a apropriação da vida humana a partir da extração contínua de informações quantificadas de cada pessoa para obtenção de lucro. Já Paola Ricaurte denuncia que as epistemologias centradas em dados são expressões da colonialidade do poder que vai submetendo os modos de saber às epistemologias voltadas ao mercado. O Big Data vai se tornando a base do conhecimento considerado indispensável e o machine learning o modo irrecusável de extrair padrões e formular predições.

Paola Ricaurte nos alerta de que a epistemologia dessa imensa dataficação é uma evolução do paradigma positivista que se baseia em três suposições. A primeira é a de que os dados refletem a realidade, portanto, são expressões da verdade. A segunda é a suposição de que a análise desses dados pode gerar um conhecimento extremamente valioso e completamente preciso. Contra dados, não há argumentos. A terceira suposição indica que a análise dos dados permite melhorar as decisões sobre o mundo. Acredito que exista uma quarta suposição, talvez decorrência direta da primeira, que é a naturalização dos dados. Essas suposições estão na base do que a pesquisadora Van Dijck denominou de “dataismo”, uma crença quase religiosa de que os dados falam pela realidade.

O neoliberalismo, atualmente em sua fase mais profunda e perigosa para a democracia, propicia a expansão da economia dataficada, do mercado de dados pessoais e de uma concorrência das grandes plataformas coletoras de dados. Esse processo vai se consolidando diante do contentamento acrítico e displicente de pessoas maravilhadas com os dispositivos e interfaces tecnológicas que como bugigangas vão fidelizando os diversos segmentos sociais às plataformas de extração de dados. Essas companhias não vêm aqui levar pau-brasil ou metais precisos, levam dados pessoais que serão processados e vendidos em amostras para o marketing comercial e político. Mais do que isso, os dados pessoais alimentam as estruturas de dados de aprendizagem de máquina e de outros modelos de inteligência artificial com o objetivo de predizer nossas ações.

Concretamente, se os dados são “o petróleo do século XXI” estamos sendo usurpados. Obviamente, dados não são recursos naturais, mas no paradigma do novo colonialismo são expressões naturais da realidade e tal como qualquer recurso natural no capitalismo é precificado e apropriado privadamente. Quem consegue extrair e se apropriar dos dados que estão aí disponíveis? Obviamente, as grandes plataformas que nos oferecem suas interfaces como um pescador que oferece uma isca em um anzol.

Boa parte das universidades brasileiras já deixou de preservar os dados de seus professores, pesquisadores, estudantes e técnicos. A iniciativa Educação Vigiada – organizada pela Iniciativa Educação Aberta (parceria entre a Cátedra UNESCO de Educação EaD da UnB e o Instituto EducaDigital), e pelo Laboratório Amazônico de Estudos Sociotécnicos e o Centro de Competência em Software Livre, ambos da UFPA – constatou que 70% das universidades públicas e secretarias estaduais de educação no Brasil hospedam parte considerável de seus dados em grandes plataformas, como Google, Microsoft e Amazon.

Não ser capaz de cuidar dos dados cruciais para as políticas públicas educacionais do país parece ser visto como fator positivo pela mentalidade neocolonial. O MEC publicou no dia 23 de março de 2020, uma segunda-feira, às 14h38, em seu portal, a seguinte notícia: Microsoft destaca Sisu em nuvem como case de sucesso. A matéria saudava o fato de o MEC ter migrado o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) com os dados do desempenho escolar dos estudantes que buscaram vagas nas universidades brasileiras para “a nuvem da multinacional de tecnologia para aumentar a capacidade de acessos”. Com link direto para o site da Microsoft, o MEC entregou os dados de estudantes brasileiros para a plataforma Microsoft Azure. Boa parte desses dados provavelmente foram enviados para servidores instalados em data centers nos Estados Unidos.

O texto publicado no portal do Ministério da Educação enaltecia a migração como um autoelogio, mas vindo de um release da Microsoft que dizia: “o MEC levou em consideração a necessidade de investimento em infraestrutura para comportar um sistema que recebe um enorme volume de acessos em apenas 12 dias por ano”. Desse modo, para evitar a ociosidade, para reduzir custos, Weintraub entregou os dados de 1.795.211 estudantes para quem tem capacidade e bom preço para suportar o acesso de sete mil inscritos por minuto. A colônia digital não tem a tecnologia da matriz e por isso entrega a sua matéria-prima em troca de matéria processada. Em nenhum momento, o MEC pensou em montar uma estrutura que vencesse a ociosidade hospedando os bancos de dados das universidades que estão sendo entregues para as plataformas norte-americanas.

Mas a colônia digital tem exemplos de sobra da extração de dados praticados pelas plataformas no cotidiano. Aqui apontarei apenas mais um. A pandemia novamente abre as portas para a oportuna ação das plataformas em busca de dados. O governo de São Paulo, empolgado com as grandes plataformas, decidiu cadastrar pessoas em situação de rua com um aplicativo que utilizará “gratuitamente” a plataforma Power Apps, “doada” pela Microsoft.  Ela permite a identificação das pessoas por meio de um QR Code que será impresso em um cartão PVC e depois escaneado quando o morador em situação de rua for acessar as unidades de distribuição de refeições.

Quem insere os dados na plataforma da Microsoft são os agentes de campo da Prefeitura de São Paulo. Segundo a corporação, todos os dados serão “armazenados e gerenciados no Dynamics 365, conjunto de aplicativos de negócio baseado na nuvem da Microsoft”. A Microsoft com essa ação acredita estar se credenciando para fortalecer as organizações no combate ao novo coronavírus.

Obviamente também iniciará a implantação de seus produtos Power Apps, Power Automate, Power Apps portals, Dynamics 365 e Power Virtual Agents para clientes nas áreas de saúde, educação, ONGs e governos. A generosidade é também a oportunidade de expandir seus serviços de coleta e armazenamento de dados em um cenário de disputa acirrada não somente com o Google e com a Amazon, mas também com as empresas chinesas que vem por aí.

A experiência e a condição humana se tornou matéria-prima a ser explorada por plataformas que podem utilizar os dados não somente das camadas médias, mas também das massas pauperizadas para treinar seus algoritmos de aprendizado de máquina. É impressionante que quanto mais o neoliberalismo manda reduzir custos do Estado, mais avança a extração de dados dos países empobrecidos para suas matrizes. Os dirigentes do Brasil atual fazem de tudo para assegurar as plenas condições para a extração de dados aqui na colônia.

O SERPRO, empresa pública de tecnologia da informação, criada para proteger as informações estratégicas da Receita Federal, no governo Bolsonaro, comemora um contrato que o coloca como parceiro e revendedor de espaços na nuvem da Amazon Web Services, Inc. Mesmo sabendo da existência da Communications Assistance for Law Enforcement Act (CALEA), nos Estados Unidos, que obriga fabricantes de equipamentos de telecomunicações a implementarem em seus produtos meios para o acesso das agências de inteligência norte-americanas às comunicações realizadas, o MCTIC firma uma parceria com a Cisco. Nenhum questionamento é realizado. O colonizado se comporta como o esperado pelo colonizador. Brasil, uma grande colônia digital.

(Sergio Amadeu da Silveira é professor da Universidade Federal do ABC. Doutor em Ciência Política e pesquisador de redes digitais e tecnologias da informação)

FONTE: https://aterraeredonda.com.br/brasil-colonia-digital/

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