Dois em um nessa sexta: Juca Kfouri e Veríssimo

17/08/2018 às 3:24 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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O primeiro, do Juca Kfouri, li na Folha de São Paulo em papel, curiosamente com o título diferente: “Roubaram a corrupção”. O segundo, do Veríssimo, li no A TARDE, de Salvador. Valem a pena !


Fifa roubou a corrupção do seu código de ética JucaKfouri

A CBF não pediu restituição do dinheiro que seus ex-presidentes surrupiaram da entidade, e a Fifa tirou a corrupção de seu código de ética.

Se a rara leitora e o raro leitor acham que estão lendo um texto de humor, se enganam. É de horror. Porque fiel à Lei da Omertà, a “nova” CBF se mantém fiel aos ex-chefes que, afinal, indicaram os atuais.

E a “nova” Fifa, para cumprir o que seu presidente prometeu ao assumir a transnacional mafiosa do futebol, que acabaria com a corrupção que a abalou tão seriamente, roubou a palavra maldita de seu código chamado de ética, na verdade de estética, mera maquiagem para tudo seguir como sempre. Daí não surpreender que o trio, até o ano passado soberano no futebol mundial, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar Júnior, viva às voltas com o fisco.

Surpreendente é seguirmos loucos por futebol.

A Fifa, presidida por Gianni Infantino, simplesmente retirou de seu novo código de ética todas as menções à palavra "corrupção"A Fifa, presidida por Gianni Infantino, simplesmente retirou de seu novo código de ética todas as menções à palavra “corrupção” – Petr David Josek/Associated Press

Tivéssemos um mínimo de vergonha na cara, daríamos um bico a escanteio no futebol e iríamos tratar de coisas mais importantes. Como a política, por exemplo…

OK OK OK, como diz Gilberto Gil em seu novo disco.

Paremos de brincadeira porque está dito que o texto não é de humor e, segundo o filósofo escocês Bill Shankly (1913-1981), “é claro que o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”. Shankly fez do Liverpool o melhor time europeu nos anos 1970 e não viveu para ver a Premier League virar o que virou, o melhor campeonato nacional do planeta.

Talvez tivesse inveja de ver o Manchester City de Pep Guardiola, campeão no ano passado e já vitorioso na estreia desta temporada, ao passar por cima do Arsenal, em Londres, por 2 a 0, num clássico que honra o nome dos clássicos.

Mas o que veio fazer aqui o velho Shankly numa história podre dedicada aos Infantino, Blatter, Havelange, Teixeira, Marin, Del Nero e seus seguidores espalhados pelo mundo em geral e pelo Brasil em particular?

Veio explicar, com sua devoção cristalina ao futebol, por que seguimos apaixonados por esse esporte em sua capacidade infinita de nos fazer retornar à infância, com todos os direitos permitidos pela ingenuidade.

Quando a bola que interessa rola, esquecemos de todas as demais, infames, na maioria das vezes impunes, embora somem milhões e milhões de dólares, de euros, de reais.

Porque o bicho homem é assim, precisa ter com o que se distrair, tem de se divertir, de acreditar na salvação do mundo, na utopia da justiça sendo feita, no drible do Mané, no passe do Tostão, no gol de Pelé.

Ou, vá lá, apesar de todos os pesares, no drible de Neymar, no passe de Messi, no gol de Cristiano Ronaldo.

A quarta (15) passou e ficamos hipnotizados por Flamengo e Grêmio e por Chapecoense e Corinthians.

Nesta quinta (16), a anestesia será aplicada por Palmeiras e Bahia, pelo São Paulo na Argentina.

Quem dera poder desistir, mandar tudo às favas e dizer em alto e bom som para os mafiosos que chega, basta, vocês não nos engabelarão mais. Como não cobrar o que foi desviado da CBF?! Como roubar até a corrupção no código da Fifa?!

É tarde, futeboleiras e futeboleiros, demasiado tarde.

Quem veio até aqui continuará se iludindo, esmurrará todas as facas que porventura ainda houver para esmurrar. E quando o apito na fábrica de torcidas vier ferir nossos ouvidos, estará pronto para soltar o grito de gol. Pois como ensinou o cardeal corintiano Dom Paulo Evaristo Arns, “não há derrotas definitivas para o povo”.

Coisa que o saudoso amigo Claudio Weber Abramo também sabia em sua luta permanente contra a palavra que a Fifa extirpou.

(Juca Kfouri)

FONTE: Folha de São Paulo, 16.08.2018


A bordo luis-fernando-verissimo-l

Numa das suas crônicas, o ótimo Antonio Prata lamenta que não é incomum ouvir-se, dentro de um avião, a voz de uma aeromoça perguntando se há um médico a bordo, mas até hoje ninguém ouviu uma aeromoça perguntar se há um cronista a bordo.

Tenta-se localizar um médico para atender um passageiro que está mal,éóbvio. Mas que emergência exigiria a presença de um cronista no avião? É, Antonio. Como dizia aquela música de alguns anos atrás, a gente somos inútil. Somos espectadores dessa coisa terrível que se convencionou chamar de “isso que está aí”, ou, pior, isso que está se armando nos horizontes da pátria, como as nuvens negras de uma ópera wagneriana. Fazer o que, salvo crônicas?

E vai piorar. A próxima voz de aeromoça que se ouvir no nosso avião metafórico pode estar pedindo mais do que um médico para tratar um doente ou, vá lá, um palhaço ou uma odalisca para distraí-lo. O que, decididamente, ninguém quer ouvir a aeromoça dizer é:

– Tem alguém que saiba pilotar um avião a bordo? Porque a sensação que se tem é a de estar num avião cujo piloto se jogou pela janela. Né não?

Consolemo-nos, Antonio, enquanto o pior não vem. Você conhece a história da mãe judia que, no meio de um espetáculo teatral, levanta-se e grita:

– Há um médico na plateia? O espetáculo é interrompido,três ou quatro médicos solícitos atendem ao chamado da senhora e perguntam o que ela quer.

A senhora responde:

– Quero apresentar a nossa Sarinha, dezenove anos, um mimo. E também cozinha…

E tem aquela do… mas não adianta. Não dá para fingir que não vemos as nuvens negras no horizonte. Algumas dicas para sobreviver no temporal que se aproxima: em hipótese alguma assista aos debates políticos para não se desencantar, não com os candidatos, mas com a espécie humana em geral. Beba muita água, tenha pensamentos positivos ou, na falta deles, pense na Patrícia Pillar. Se os sintomas persistirem, emigre.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 16.08.2018

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JG80 ou “O livro caindo na alma…”

16/08/2018 às 3:50 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente crônica do arquiteto Lourenço Mueller. A lembrança de Castro Alves é sempre salutar.

Viva os livros !

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JG80 ou “O livro caindo na alma…”

É gérmen – que faz a palma, é gota – que faz o mar” (Antônio de Castro Alves).

Vamos recolocar os livros na dimensão da importância que sempre tiveram em relação à formação dos homens, como um propósito. Analisem o simbolismo dos versos do gênio baiano para amplificar esse propósito naquela dimensão florestal e oceânica, ao mesmo tempo.

Não nos deixemos vencer pela moda passageira instituída pelos gigantes da informática interessados em espetacularizar a imagem, reduzir o valor da palavra para vender celulares e, afinal, mais do que aproximar, afastar as pessoas.

O que importa é a outorga de poder ao livro impresso, revitalizando esse herói da cultura que resiste a quase tudo. E é de quem os ama e promove (‘Bendito aquele que semeia…’) que vou falar agora, ao juntar o verso do bardo baiano ao octogésimo aniversário de Joaci Góes (dia 25), o melhor intérprete de Castro Alves que já vi declamar. Certa vez – o que quase me faz acreditar em espíritos – incorporou o brilho e o gênio do ‘poeta dos escravos’ no salão nobre da ‘Associação Comercial da Bahia, [em] que Castro Alves declamou pela última vez, a 10 de fevereiro de 1871, cinco meses antes de morrer’ (Góes, Joaci. “As 51 personalidades (mais) marcantes do Brasil”. RJ: Topbooks, 2014. Pág. 190): fascinou o plenário ao declamar de memória ‘O Navio Negreiro’ como se o tivesse composto, o rosto rubro, a voz embargada.

Deixo aos confrades das Academias a que Joaci pertence – nas homenagens que certamente se seguirão a esse artigo – a ilustração precisa de seus méritos e títulos políticos, intelectuais e empresariais, que bastariam para encher esta página. Dou o abraço natalício detendo-me: na palavra e nas letras, jotagê que é o seu exímio arauto; no ser humano que é, para a família e para os amigos; na relevância que tem para a coletividade pelo pensamento quase obsessivo sobre a importância da educação. O projeto que tem JG de transformação desse País através da educação e, claro, do seu mais intenso vetor, dá ensejo ao verso: “Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas” (Mario Quintana).

(Lourenço Mueller)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 12.08.2018

O PAÍS DO FUTURO JÁ ERA

15/08/2018 às 3:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Mais uma boa crônica do Jaguar. Sentir saudades do Temer, já pensou ? Que país é esse ?

 

“Se o capitão e o general forem eleitos, acredite se quiser, teremos muitas, mas muitas saudades do Temer”

Jaguar

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O PAÍS DO FUTURO JÁ ERA

Rio de Janeiro – Stefan Zweig, judeu austríaco, exilou-se em Petrópolis, no estado do Rio, enquanto Hitler barbarizava a Europa.Brasil,país do futuro foi lançado depois da sua primeira viagem ao país, em 1936, em vários idiomas, inclusive o nosso. Foi um tremendo sucesso de vendas mundo afora. Já a crítica foi reticente; afinal, o Brasil vivia a ditadura de Vargas e os elogios ufanistas do escritor às maravilhas do Patropi não batiam com a realidade, a repressão dos fascistas tupiniquins. O fato é que quando ele e sua mulher, Lotte, se mataram com veneno, o impacto foi enorme. Eu tinha 10 anos e uma das poucas lembranças que tenho da infância é de minha mãe chorando como se tivesse perdido um parente. Na estante do escritório do meu pai tinha uma prateleira só com livros dele. Inclusive um com dedicatória, do que ele muito se ufanava. Zweig fez uma palestra em Santos, onde meu pai era gerente do Banco do Brasil. Outro que se matou em Petrópolis foi Santos Dumont, o inventor do avião e do relógio de pulso. E fico imaginando: se fossem vivos, acho que se matariam de novo, depois do noticiário do Bom Dia, Brasil (risos). Se Petrópolis parece uma cidade boa para se matar, também é boa para se viver: passamos lá boa parte do nosso tempo. E apesar de ver o noticiário das oito, ainda não pensamos em veneno, corda ou pistola. Nem chegamos ao ponto do personagem da HQ do Adão Iturrusgaray, que todos os dias se atira do alto de um penhasco. Fiz uma charge na qual um eleitor se mostra indeciso: “Não sei se voto no ruim ou no pior”. E, é claro, um deles é o Bolsonaro, meu colega. Pasmem, mas é verdade: fiz meu serviço militar na Artilharia , como ele. E também descobri que conseguiu o que parecia impossível: um vice mais racista e reacionário que ele. Convenhamos: isso demanda alguma competência. Esse general Mourão seria parente do general Mourão, chefe da censura depois do golpe e que, a partir do AI-5, infernizou a vida do Pasquim? E o pior é que, se forem eleitos, já encontrarão muita coisa do jeito deles. Pasmem de novo: 400 mil bombas de fragmentação fabricadas no Brasil já foram jogadas no Iêmen. Cada uma mata e dilacera numa área de 400 metros de diâmetro. Sessenta países assinaram um tratado se comprometendo a não fabricar essas armas letais. O Brasil não assinou: faturar é preciso. Depois das eleições,teremos possivelmente o pior presidente da História do Brasil. Outro dia um repórter me ligou, querendo saber em quem eu vou votar. “Em ninguém, meu filho. Porque no dia seguinte à posse vou ter que fazer charges contra o eleito. Não existe charge a favor”. Aí ele perguntou por que não tenho feito charges contra o Temer. “Eu não sabia que ele ainda estava no Alvorada”, respondi. Para terminar: se o capitão e o general forem eleitos, acredite se quiser, teremos muitas, mas muitas saudades do Temer.

(Jaguar)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 11.08.2018

MENINAS COM CIÊNCIA

13/08/2018 às 3:38 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse evento, infelizmente, é restrito à cidade de São Paulo, pois ocorrerá fisicamente na maior metrópole da América Latina. Mas como achei muito interessante, resolvi compartilhar aqui com todos. Sem ciência e tecnologia nenhum país se desenvolve.


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