Caro Fernando Haddad

20/10/2018 às 17:44 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Assino também essa carta do Professor Marlon Marcos !

FotoRosa


Caro Fernando Haddad

Apriori, me honra ter um homem da sua inteireza política e humana como possível presidente deste País que amamos. Estamos mergulhados na era dos assombros com medo da morte precoce, das violências raciais, sexuais e antirreligiosas, elevadas à categoria de política de Estado, onde tudo se alicerça na truculência, na falta de debate, na ameaça evidente do fim da nossa sempre violada democracia.

Agora, não quero falar dos descaminhos do importante Partido dos Trabalhadores. Quero falar da feição de afeto, bom senso, necessidade de organização entre os que se preferem democráticos e a favor da expressão de liberdade; falar dos princípios que lhe movem e nos orgulham, e lhe agradecer por suportar a tarefa inglória de disputar uma campanha eleitoral, onde o seu opositor corporifica a sujeira deste tempo que quer neoescravizar o povo brasileiro, nós trabalhadores que sustentamos a economia capitalista.

Não quero falar nem de esquerda e nem de direita, agora. Quero a liberdade, espraiada a todos, que sinto ao escrever este texto endereçado às múltiplas representações que você carrega como candidato a Presidente do Brasil. Quero abraçar o Haddad gay, negro, mulher, indígena, quilombola, travesti, nordestino, trans, pobre, candomblecista, ateu, criança, velho, artista, poeta, trabalhador. Quero a força do verdadeiro bem que sua candidatura imprime nesta fétida eleição. A esperança de não perdemos o direito de ser frente à feiura de um Estado autoritário, militar e teocrático, ao mesmo tempo.

Eu acredito e clamo a ancestralidade afro-indígena: caboclos, inquices, voduns e orixás a nos guiar nesta árdua empreitada, Rogo a Nossa Senhora que nos ofereça o colo. Ao Espírito Santo que nos ilumine. A Buda que seja justiça. A Krishna que seja carinho. Que os bons espíritos tragam luz. Mas, no fundo, preciso acreditar nos homens e mulheres, que estejam entre Ailton Krenak, Lélia Gonzalez, Gaiaku Luiza, Diva Vieira Passos, Guilherme Boulos, Manu D’Ávila… Eu acredito em Fernando Haddad.

(Marlos Marcos)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 20.10.2019

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Prédio escolar no Tocantins reformado com ajuda de alunos é eleito melhor do mundo

19/10/2018 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Essa notícia eu soube primeiro via blog “O Bem Viver”, mas a fonte primária é a Folha de São Paulo. Em tempos tenebrosos, uma notícia dessa é sempre muito bem-vinda. Parabéns a todos os envolvidos nesse projeto.


Prédio escolar no Tocantins reformado com ajuda de alunos é eleito melhor do mundo

Projeto liderado por Marcelo Rosenbaum fez de colégio interno uma verdadeira escola-casa

Mesa amarela que corta toda a sala de estudos de escola rural no Tocantins

Alunos na sala de estudos do novo prédio de dormitórios da escola-fazenda Canuanã, em Formoso do Araguaia (TO) Tácio Pimenta/Folhapres

FORMOSO DO ARAGUAIA (TO)

​Uma reforma inovadora proporcionou a uma escola-fazenda no interior do Tocantins o prêmio de “melhor edifício de arquitetura educacional do mundo” de 2018, outorgado pela Building of the Year.

Localizada na área rural de Formoso do Araguaia, a 320 quilômetros de Palmas, a Canuanã funciona em regime de internato, numa área de 2.549 hectares. Mantida pela Fundação Bradesco há 45 anos, a escola, com 830 matriculados, tem posto de saúde, equipe de costureiras, salão de beleza, estação própria de tratamento de esgoto, refeitório e, ainda, vista para o rio Javaés.

A instituição recebe crianças a partir de sete anos. A maior parte delas fica ali até concluir o ensino médio. Após o terceiro ano, há a opção de fazer uma especialização como técnico agropecuário. A taxa de evasãonão chega a 2% ao ano —no país, o índice foi de 11% no ensino médio, entre 2014 e 2015.

As crianças têm rotina fixa desde que se levantam até a hora de ir para a cama. Nos fins de semana, podem visitar as famílias —assentados, de baixa renda, na maioria. Só 40 alunos são indígenas.

Em 2015, com uma estrutura de prédios ainda da década de 1970, a escola percebeu que precisaria reformar os dormitórios dos alunos na faixa dos 11 aos 18 anos (do 6º ao 9º ano do fundamental 2, do ensino médio e técnico). Os espaços abrigavam os estudantes em grupos de 80. A necessidade de mais privacidade era a maior demanda.

O projeto premiado resultou de um esforço coletivo que envolveu 60 alunos da escola, o instituto A Gente Transforma, o designer MarceloRosenbaum e o escritório Aleph Zero. Foram redesenhadas as moradias de 540 crianças, divididas em dois prédios, para meninos e meninas.

​Rosenbaum começou fazendo uma “imersão investigativa” para se aproximar da realidade dos internos e captar seus desejos para o espaço. Nessa fase, percebeu que as crianças entendiam os dormitórios como parte da escola, não como suas casas, apesar de viverem 24 horas por dia lá —durante anos.

“Falavam que moravam na escola. Não reconheciam Canuanã como sua morada”, diz Rosenbaum. “O projeto precisava trazer para eles a ideia de que Canuanã era a casa deles.”

O profissional usou a metodologia do design essencial, que consiste na capacidade de perceber a cultura, de desvendar e dar voz aos valores e saberes essenciais locais. Naquele espaço, significou reconhecer o entorno da cultura cabocla e indígena.

“Fizemos um resgate dos saberes ancestrais que permeiam a cultura nativa, dos índios javaés que moram à frente da fazenda, das tecnologias aplicadas nas casas dos assentados, da convivência no cerrado, do calor da região. A partir daí, preparamos um processo de cocriação com eles, na segunda etapa”, conta o designer.

Na fase seguinte, os alunos mergulharam com Rosenbaum na empreitada. Várias atividades guiaram os participantes nessa etapa. Michael Jackson Fernandes, 17, foi um dos internos que participaram do processo e ganhou seu nome na plaquinha fixada na entrada do dormitório masculino em Canuanã.

“Rosenbaum reuniu uma galera e pediu opiniões”, conta o estudante. Os meninos colocaram o que queriam no papel, desenharam, pediram, principalmente menos gente por espaço. “No dormitório coletivo tinha muito aluno convivendo junto”, afirma Michael Jackson.

Vacas são ordenhadas mecanicamente em escola técnicaEstudantes do curso técnico agropecuário auxiliam a ordenha mecânica, na escola-fazenda Canuanã, em Formoso do Araguaia (TO) – Kanoanã

Para ele, o ponto mais importante da mudança foi a conquista da privacidade. A partir de então, o aluno pode não apenas escolher com quem vai morar durante o ano, mas também controlar melhor sua rotina: quando estudar, dormir ou conversar.

“Mudou muito. Antes a gente ficava com muitos, sem intimidade. Não era só com os próximos, como hoje, que ficamos em seis”, diz Michael Jackson. Na nova organização espacial, os alunos podem usar a sala de estudos a qualquer tempo. “Ficou melhor do que a gente esperava, com dois andares e muitas áreas de lazer. Bonito, diferente e organizado”, conta.

A diretora pedagógica, Gislaine Maciel, afirma que a reforma contribuiu para a mudança na dinâmica de relacionamento entre os alunos, com reflexo em todas as outras áreas.

“Uma coisa é um inspetor passar às 21h e falar que está na hora de dormir, e os 80 terem que ir dormir. Outra coisa sou eu e meus amigos falarmos ‘cara, a gente precisa dormir porque amanhã a gente vai acordar cedo’. A mudança que tem reflexo na sala de aula é que esse aluno passa a ter tranquilidade para estudar no seu quarto, com sua bancada.”

A escolha dos materiais para a reforma levou em conta métodos construtivos e matérias-primas da região, entre eles: os tijolos de adobe, a madeira, o trançado da palha da casa do caboclo.

Os grafismos indígenas posicionados nas portas dos dormitórios foram produzidos pelos índios javaés, da aldeia Kanoanã.

Placas com grafismos indígenas coladas nas paredes de tijolos de escolaMontagem de fotos das portas dos dormitórios dos alunos, com grafismos indígenas produzidos pelos índios javaés, da aldeia Kanoanã. – Tácio Pimenta/Folhapress

Após a finalização do projeto dos dormitórios, a escola convidou os índios da aldeia São João para dançar no ginásio, com toda a comunidade escolar presente, como parte da celebração de entrega da obra.

Segundo o diretor da Canuanã, Ricardo Rehder, a ideia de usar os desenhos indígenas nas portas não só valoriza o que há na região, mas também mostra aos alunos não índios que esses povos têm uma “cultura extremamente forte que deve ser respeitada”.

Por ficarem internados em uma escola rural por 11 anos, muitos estudantes terminam o ensino médio sem saber lidar com questões como usar o caixa eletrônico, fazer comida ou lavar sua própria roupa, diz o diretor.

Afastados da vida em cidades grandes, os internos da Canuanã conquistaram há apenas dois anos o acesso às redes sociais. Antes, a navegação na internet era totalmente restrita, controlada pelos professores.

Na visão do diretor, a escola, às vezes, acaba sendo superprotetora. “Temos que dar algumas coisas prontas. Como eles vão fazer comida aqui? Não tem como, a gente tem que oferecer. Onde vão lavar roupa? Essa responsabilidade é nossa. Mas outras coisas, não. A gente errava, a gente queria proteger muito e não deixava eles resolverem problemas práticos. Não adianta fugir, o mundo é assim.”

Eles visitam a capital, Palmas, na disciplina de estudos do meio, para conhecer pontos turísticos, ir ao cinema, ao shopping e perceber como é a vida urbana.

Andressa Martins, 19 anos e há 12 vivendo em Canuanã, está quase se despedindo da escola. Para ela, a experiência foi maravilhosa.

“Estou fazendo o ensino técnico para me profissionalizar mais um pouco, mas tenho medo de sair daqui e não conseguir nada. Estou bem nervosa com o final do ano, mas também empolgada para começar essa nova etapa. Acompanhei toda a mudança da escola, dos computadores antigos até a liberação da internet. Hoje a gente tem um leque de materiais e especialidades. O aluno só não sai daqui especializado se ele não quiser. ”

O plano da estudante é trabalhar e juntar dinheiro para só então prestar vestibular. Estou em dúvida entre cursar agronomia ou veterinária. Quero ficar, estudar e trabalhar por aqui, se precisar sair do estado, eu saio, mas se tiver oportunidade quero voltar para cá e morar perto de Canuanã”, diz.

(Cecília Santos)

FONTE: Folha de São Paulo

Tratar Haddad e Bolsonaro como equivalentes é injusto

17/10/2018 às 15:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente esse artigo de Jânio de Freitas, publicado recentemente na Folha de São Paulo.

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Tratar Haddad e Bolsonaro como equivalentes é injusto  janio-de-freitas-2

Um ou outro. Assim é a atual eleição presidencial. Nenhum eleitor, absolutamente nenhum, ainda que se abstenha por ausência ou voto omisso, deixará de contribuir para a eleição de um ou de outro. Mas, se a decisão eleitoral se faz entre dois nomes, na verdade, o eleitor fará outra opção. Vai escolher entre democracia e autoritarismo.

Não há neutralidade diante desta bifurcação. A decisão do PSDB e do DEM (chama-se Democratas, veja só) de não apoiar Jair Bolsonaro (PSL) nem Fernando Haddad (PT) parece fuga à responsabilidade, a sua tradicional subida no muro.

É, no entanto, apoio a Bolsonaro e ao que ele representa, já que o beneficiam todas as opções que não sejam de apoio explícito a Haddad, carente de votos. Os pilatos envergonhados recorrem ao ardil apenas verbal da neutralidade.

Descendente direto da ditadura, o DEM mudou de nome sem mudar de natureza. O PSDB fez o inverso. Traído por vários de seus líderes, renegou as origens e os compromissos promissores, e se tornou o líder da direita até ver-se agora desbancado por um partido nanico. A escolha mal disfarçada dos peessedebistas por Bolsonaro e pelo autoritarismo pode ser coerente, mas é vergonhosa.

Os dois puxadores de tal posição não precisariam mais do que respeitar sua história remota. Nela se conta que Fernando Henrique e José Serra se sentiram ameaçados pela ditadura militar a ponto de buscar refúgio no exterior.

O primeiro teve vida mansa por lá, mas o outro passou por riscos e dificuldades superados só pela sorte. Hoje, é a defensores nostálgicos da força que os perseguiu, enquanto impunha no país a tortura, a morte, a censura, o atraso, que Fernando Henrique e José Serra dão a ajuda capaz de ser decisiva. É demais.
Haddad e Bolsonaro não se equivalem, nem o PT e a corrente política bolsonarista são a mesma moeda, como muitos têm dito e escrito.

A respeito, Hélio Schwartsman já foi claro: “Bolsonaro já deu inúmeras declarações que escancaram seu descompromisso para com a democracia e os direitos humanos. Não é absurdo, portanto, imaginar que, uma vez alçado ao poder, ele dê início a uma escalada autoritária” // “Quanto a Haddad e o PT, se o passado vale alguma coisa, eles já foram aprovados no teste da democracia. O partido teve uma presidente destituída e seu líder máximo preso e em nenhum momento deixou de acatar as regras”.

Os defeitos de Bolsonaro que nos interessam, muitos, não são vistos em Haddad. As qualidades de Haddad, como pessoa e como homem público, nunca foram vistas em Bolsonaro nos seus 27 anos de político. Sem falar no seu tempo de perturbador dos quartéis. Tratar os dois como equivalentes não é apenas injusto, é também falso. E não é de boa-fé.

A democracia não é defendida com posição passiva nem, muito menos, com enganosa neutralidade. Defendê-la, pelos meios disponíveis, não é comprometer-se senão com a própria democracia. Não a defender, é traição ao presente do país e às gerações que nele ainda despontam.

(Jânio de Freitas)

FONTE: Folha de São Paulo

O GUARDA DA ESQUINA

17/10/2018 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Já estamos há muito assustados com o guarda da esquina, agora mais ainda. Só há uma saída para espantá-lo de vez: O VOTO !

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O GUARDA DA ESQUINA

O jornalista Carlos Chagas costumava contar uma história: em meio à reunião em que se discutiu a edição do AI-5, enquanto o vice-presidente Pedro Aleixo apresenta ressalvas, o então ministro da Justiça, Gama e Silva, lhe pergunta: “Mas Dr. Pedro, o senhor tem alguma coisa contra as mãos honradas do presidente Costa e Silva que está aqui? É ele é quem vai aplicar o AI-5”, ao que Pedro Aleixo responde: “Não, das mãos honradas do presidente da República eu não tenho o menor medo, eu tenho medo é do guarda da esquina”.

Nas últimas semanas, assistimos situações em que pessoas foram atacadas, agredidas e ameaçadas por apoiadores de Bolsonaro apenas porque vestiam camisa vermelha, ou se posicionavam publicamente como eleitores do PT. Há alguns dias, a cena em que dois homens brancos e fortes seguram a placa em homenagem a Marielle Franco partida ao meio, viralizou na internet como símbolo da profanação e de uma segunda execução da vereadora, uma mulher negra e socialista. Há quem ache exagero nos que apontam os riscos que corremos com o avanço do fascismo e a possibilidade de um candidato que exorta o ódio e a violência vencer as eleições, mas exemplos históricos existem aos montes e apontam para a gravidade do momento.

O fascismo não se caracteriza apenas pelo ódio ou pelas promessas de ordem a qualquer custo partidas das bocas dos seus chefes. A característica principal do fenômeno é que, em meio ao desespero de milhões, quando os chefes autorizam, estimulam e sugerem que tudo será resolvido de maneira simples e que o culpado é o outro, hordas de indivíduos, milícias e grupamentos paramilitares decidem que vão tratar dos problemas à revelia do Estado, das autoridades e das Leis estabelecidas. No descrito episódio da placa de Marielle, as palavras do então candidato ao senado, Flavio Bolsonaro, não deixam dúvidas: tratava-se da “restauração da ordem”. Alguns dias depois o próprio presidenciável confirmou não ter controle sobre o que vinha sendo praticado em seu nome, se referindo ao assassinato de Mestre Moa do Katendê.

Quem ainda não se deu conta do que está se passando é melhor ficar atento. O fascismo avança  com o beneplácito e as vistas grossas da imprensa, do judiciário e das frágeis autoridades constituídas a partir do golpe de 2016, ano em que uma ligeira fresta foi aberta por onde os demônios começaram a atravessar. E se já não era bom, pode piorar, pois não vai haver nenhuma ordem imposta na base da força e nem vai existir governo na base do medo, a não ser que ativistas sejam presos, trabalhadores sejam reprimidos, sindicatos sejam esmagados e a imprensa seja silenciada. Se for assim, estaremos efetivamente numa ditadura fascista, situação em que a violência partida do Estado será potencializada pelos milhões de guardas da esquina que já começaram a mostrar serviço.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior – Professor do Departamento de História da UFBA)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 12.10.2018

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