Mulheres protagonizaram lutas pela independência

02/07/2022 às 10:25 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Alguém aqui conhece as “Caretas do Mingau” ? Devemos também a elas a nossa real independência de Portugal ! Confiram esse interessante artigo (grifos meus !).


Mulheres protagonizaram lutas pela independência

HEROÍNAS Entre as muitas anônimas, algumas mulheres registraram seus nomes na história como Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Felipa

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As batalhas pela Independência da Bahia duraram um ano e sete dias, e dentre os muitos personagens que protagonizaram esse importante pedaço de nossa história, há um incontável número de mulheres. Entre as muitas heroínas anônimas – costureiras, ganhadeiras, esposas,mães -, há aquelas que conseguiram que seus nomes entrassem para o roteiro dessa conquista, como a protetora Joana Angélica, a guerreira Maria Quitéria e a lendária Maria Felipa.

“A verdade é que são muitas as mulheres e homens, escravos e índios, que não entraram devidamente nos registros históricos da época, que sim, eram muito machistas e patriarcais”, explica o pesquisador, jornalista e membro da Comissão de Cultura do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), Jorge Ramos.

Das poucas mulheres que não tiveram seus nomes apagados, temos a abadessa Joana Angélica, a primeira heroína da independência. “Ela foi uma mártir, uma protetora e uma vítima também. Joana Angélica se pôs à frente dos portões do Convento da Lapa para impedir que soldados portugueses invadissem aquele local que homens não podiam entrar, pois era de freiras enclausuradas. Ela as protegeu com a própria vida, foi um gesto puramente heróico. Há livros que dizem que alguns desses soldados provavelmente estavam bêbados, que eram selvagens e poderiam, ou até queriam, abusar das noviças”, explica Jorge Ramos.

Joana Angélica já estava com 60 anos na época, recebeu golpes de baioneta dos soldados e faleceu no dia seguinte ao ataque, em 20 de fevereiro de 1822, e seu assassinato serviu como um dos estopins para o início da revolta dos brasileiros.

Motivação

Para a professora aposentada Sônia Real, 81 anos, histórias como as de Joana e das  tantas outras heroínas da Independência da Bahia, são uma inspiração e mostram como as mulheres são fortes. E combatentes. “Acredito que a maioria das mulheres nasce com a vocação de proteger, é um instinto, quer ele acabe se voltando para a maternidade ou não, por exemplo. As mulheres são combatentes de diversas formas diferentes. Eu sou, assim como minha mãe, Maria Real Pereira, de 100 anos e professora leiga, também é. Nós e tantas outras mulheres por aí são combatentes, nós lutamos por nossos direitos e para termos dignidade. Penso que, acima de tudo, as mulheres procuram ser respeitadas por seja qual for o papel que ela desempenhe dentro da sociedade”, afirma a aposentada. Uma dessas combatentes é a Maria Quitéria que, vestida com roupas masculinas do cunhado, se apresentou como soldado Medeiros ao Batalhão dos Voluntários do Príncipe, lutou ao lado dos outros soldados e por sua bravura em combate, o general Pedro Labatutlhe conferiu as honras de 1º cadete.

Coragem

“No caso de Maria Quitéria, ao contrário de Joana Angélica, foi escolha dela entrar na batalha, ela queria lutar e fazer parte dessa conquista, ser guerreira”, explica o pesquisador Jorge Ramos.

Já a lendária Maria Felipa, da qual muitos duvidam da existência, existiu sim, afirma o estudioso. “Ela é um bom exemplo do quanto os historiadores da época queriam diminuir e apagar a importância que mulheres, principalmente as negras, tiveram. Maria Felipa foi resgatada da história e teria sim existido, tanto que o historiador Ubaldo Osório,  avô do escritor João Ubaldo Ribeiro, foi um dos primeiros a falar sobre ela, a marisqueira de Itaparica que liderou outras mulheres, índios tupinambás e tapuias contra navios portugueses”, contou o pesquisador.

De acordo com relatos históricos, o grupo que ela liderava era com posto por cerca de 200 pessoas que usavam facas de cortar baleia, peixeiras, pedaços de pau e galhos com espinhos como armas, e queimaram cerca de 40 embarcações portuguesas que estavam próximas à Ilha de Itaparica.

As imagens que temos dela hoje foram feitas a partir de pessoas que descreveram sua aparência: uma mulher negra alta, trabalhadora braçal e de grande força física.

Anônimas

Joana e as duas Marias foram protagonistas na conquista pela Independência, mas inúmeras outras tiveram as suas histórias ignoradas ao decorrer do tempo.

Mas a verdade é que, os membros homens das famílias foram para a guerra – adolescentes de 15 anos foram chamados – e mulheres, das mais variadas idades, que ficaram sustentando as casas e as famílias.

“Atrás de cada soldado havia uma mãe, uma irmã e uma filha, cuidando das casas, fazendas e engenhos”, afirma o pesquisador Jorge Ramos.

Há relatos, afirma o pesquisador, de uma mulher que deu duas vacas para as tropas de Pirajá se alimentarem, e algo parecido também foi relatado em Itaparica.

Elas mantinham os engenhos funcionando, produzindo farinha e alimento, costurando e remendando os uniformes, cuidando das crianças e fazendo a economia toda girar.

“É preciso ter em mente que essa guerra durou mais de um ano e todos os homens foram convocados. As mulheres ficaram em seus lares, dirigindo e coordenando outras mulheres, cuidando dos negócios e ainda enviando provisões aos soldados”.

Um exemplo marcante dessas mulheres anônimas com papéis fundamentais no 2 de Julho são as Caretas do Mingau.

Para alimentar os maridos e filhos que precisavam ficar noite e dia de guarda em Saubara (vigiando o mar alertas para qualquer navio português no horizonte), as mulheres saiam a noite cobertas por lençóis brancos e panelas na cabeça com comida e armas.

“Elas levavam mingau quente e um pouco de afago para os soldados. O objetivo das vestes era, caso algum soldado inimigo as vissem, se assustariam e fugiriam. Hoje, isso se tornou mais uma parte das festas de 2 de Julho na região, e essas mulheres, ainda que anônimas, continuam sendo lembradas”, conta Jorge Ramos.

(Priscila Dorea)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 01.07.2022

2 DE JULHO: “A LUTA DE INDEPENDÊNCIA COMPORTAVA PROJETOS DIVERSOS DE BRASIL”

02/07/2022 às 3:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Essa boa entrevista foi publicada no último domingo no suplemento MUITO do jornal A TARDE, Salvador-BA. WALTER FRAGA é HISTORIADOR e PROFESSOR da UFRB.

Urge ler e aprender sobre a nossa História !

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“A LUTA DE INDEPENDÊNCIA COMPORTAVA PROJETOS DIVERSOS DE BRASIL” WalterFraga

Em 2011, o historiador e professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano,Walter Fraga,recebeu o Prêmio Clarence H. Haring da American Historical Association pela excelência do seu trabalho de pesquisa no livro Encruzilhadas da Liberdade. Nele, o intelectual são-felista analisa as ações de homens e mulheres escravizados que protagonizaram a luta pela emancipação e por cidadania, o antes e o depois da abolição, entre 1870 e 1910. No ano em que o Brasil celebra o bicentenário do Grito do Ipiranga, marca da Independência, A TARDE conversou com Fraga para recuperar os antecedentes baianos na luta pela independência, que tem como marco o dia 25 de junho de 1822, em Cachoeira, mas também o engajamento das populações negras escravizadas nas batalhas contra os portugueses,sob a crença de que o Império do Brasil traria também justiça social para os afro-brasileiros.

O Brasil comemora em setembro 200 anos de Independência. Para os baianos, essa história termina no Dois de Julho de 1823, mas começa em Cachoeira, antes mesmo do Grito do Ipiranga, com a instalação de um governo local em Cachoeira, no dia 25 de junho de 1822. Como era o clima na cidade e por que Cachoeira foi tão importante?

O movimento pela independência do Brasil envolveu as diversas regiões da antiga colônia portuguesa na América. Mas, na Bahia, o movimento seguiu um caminho próprio. Aqui, as lutas de independência assumiram um caráter de confronto aberto contra o domínio colonial português, houve mobilização de guerra e decisivo envolvimento das camadas populares. Até meados de 1822 ainda não havia se definido, pelo menos na cabeça dos que estavam em torno da corte do Rio de Janeiro, um projeto de Brasil como país independente de Portugal. O que se pensava, inicialmente, era manter o Brasil como reino unido a Portugal sob a regência de Pedro de Alcântara, que futuramente seria aclamado D. Pedro I. Pode-se dizer que a ideia de Brasil independente foi se impondo à medida que as câmaras municipais, pressionadas pelas manifestações populares, começaram a defender  abertamente a independência definitiva. Os acontecimentos do 25 de junho em Cachoeira foram decisivos para precipitar o projeto de Brasil como país independente. Naquela altura dos acontecimentos, a cidade havia se tornado o centro da resistência contra a ocupação da cidade do Salvador por tropas portuguesas, desde meados de 1821. Para conter os ânimos da população e tentar garantir o domínio sobre a rota comercial do Rio Paraguaçu, os comandantes portugueses enviaram uma canhoneira com o fim de intimidar os ânimos populares que se avolumavam nas ruas. Foi nesse clima que populares tomaram de assalto a embarcação portuguesa desencadeando um conflito armado que se estenderia até o 2 de Julho de 1823, quando o chamado movimento libertador retomou a cidade do Salvador consumando a independência da Bahia e juntando-a ao Brasil.

Até hoje há uma rivalidade da cidade com São Félix, já que Cachoeira era econômica e politicamente muito forte naquele momento. Como era a configuração econômica da cidade?

Na época da independência, a vila de Cachoeira era o centro político de um imenso território que se estendia do Paraguaçu até o interior mais distante, o chamado sertão.Cachoeiraerao grande entreposto comercial do interior da Bahia. Além de grande porto de exportação e importação, dali partiam as principais estradas que conectavam o litoral ao sertão, ao norte de Minas e ao norte do país. Nessa época, São Félix era parte da vila de Cachoeira e povoado estratégico como convergência das tropas de muares que iam e vinham do sertão. Até então não havia esse sentimento de rivalidade entre as duas margens do Paraguaçu. A câmara de Cachoeira era a instituição política que reunia representantes das diversas regiões, todos ligados aos interesses da lavoura de cana, das fazendas de fumo e da pecuária. Depois de alguma hesitação, essa elite política e econômica passou a defender a independência sob a direção de Pedro I. Avaliavam eles que este seria o caminho mais seguro para resguardar seus interesses voltados para a economia exportadora e continuidade da escravidão e do lucrativo tráfico que convertia africanos em escravos. Por seu lado, as camadas populares formadas por setores médios urbanos, libertos e mesmo escravizados tinham expectativas e interesses próprios com relação à independência. Para escravos e libertos, num momento em que tanto se falava em liberdade, a independência se apresentava como a oportunidade de verem abolida a escravidão e se inserirem como cidadãos livres num contexto de país independente. Pode-se dizer que a luta de independência comportava projetos diversos de Brasil.

Recentemente, tivemos o Festival de Saveiros, em São Félix, que busca recuperar o papel dessas embarcações na cultura do Recôncavo. Qual a importância histórica dos saveiros no transporte das tropas para Salvador?

Na época da independência, o rio Paraguaçu era a principal via de comunicação entre a capital e o interior mais  distante. Cachoeira e São Félix eram os grandes entrepostos nesse circuito de transportes de pessoas e mercadorias. Os saveiros eram peças fundamentais nesse circuito, pois logo se revelaram a embarcação mais apropriada para navegar com desenvoltura tanto nas águas do Paraguaçu como no mar interior da Baía de Todos-os-Santos. Na época da guerra de independência, os saveiros foram também o principal meio de transporte das tropas que marcharam do Recôncavo para libertar Salvador do domínio português. Além dos saveiros, havia diversos outros tipos de embarcações, inclusive as canoas que foram fundamentais para a rendição da canhoneira que bombardeou a cidade de Cachoeira logo depois do 25 de junho quando a Câmara se pronunciou favorável ao reconhecimento de Pedro I como autoridade legítima do Brasil. O festival realizado este ano em São Félix fez uma homenagem justa aos saveiros e aos saveiristas como protagonistas do processo de fundação do Brasil como país independente.

Há quem argumente que se o Corneteiro Lopes tivesse dado toque de recolher durante a batalha do Dois de Julho e os portugueses saíssem vencedores, talvez houvesse uma cisão territorial do país, com Portugal ocupando as terras ao norte de Minas Gerais.Osenhor acha essa visão plausível? Eventualmente, a Bahia e o Nordeste poderiam ter permanecido sob controle português até a década de 1960 ou 1970, quando acontece processo de descolonização ?

Mesmo que tivessem vencido os conflitos de 1821 e 1822, dificilmente os portugueses teriam condições de manter a Bahia como sua área de domínio apartada do resto do Brasil.Desde o final do século 18, a então província da Bahia juntamente com a de Pernambuco foram palco de vários movimentos autonomistas e com forte penetração nas camadas populares. A Revolta dos Alfaiates, que tinha em sua liderança gente das camadas populares, muitos deles negros e mestiços, já questionavam o estatuto colonial e tinham em sua bandeira o combate aos preconceitos contra as ‘pessoas de cor’. Portanto, não havia contexto possível que pudesse conter por muito tempo a ideia de independência, que do ponto de vista das camadas populares estava fortemente ligado a expectativas de mudanças que pudessem incluí-las.

Seu premiado livro Encruzilhada da Liberdade trata também da frustração dos negros escravizados que lutaram contra os portugueses sonhando com uma liberdade que só viria às vésperas da República, sem inclusão social. Como avalia a participação dos brasileiros negros na luta pela independência e o pós independência?

Na época da independência, a população africana e afro-baiana representava mais de 70% da população total da cidade da Bahia e do seu Recôncavo. Grande parte dessa população estava presa à escravidão ou havia vivido a experiência do cativeiro. Mas o peso numérico não explica por si só o intenso e decisivo envolvimento das populações negras e mestiças nas lutas de independência. Duas questões são importantes: primeiro, que grande parte dessa população era escravizada e, segundo,mesmo os livres e libertos ocupavam a base da pirâmide dos que eram excluídos econômica e politicamente. Os negros, sejam escravos ou livres e libertos, tinham bons motivos para apostarem na independência como uma chance de superar a exclusão e abolir a escravidão na época da independência. Para eles, o projeto de Brasil era mais inclusivo do ponto de vista das liberdades e da cidadania. Por isso mesmo havia fortes temores por parte das elites baianas com o alistamento dos cativos nas tropas que marcharam para libertar Salvador. Ainda assim, a maioria dos combatentes que libertaram Salvador no 2 de julho de 1823 era negra e mestiça.

O site Salvador Escravagista mapeia referências elogiosas, em logradouros e monumentos, para denunciar a atualidade do pensamento escravagista. Essas homenagens são um sinal do quão longe a liberdade dos brasileiros negros está de ser completa?

Importantíssima essa iniciativa de denunciar esses monumentos que enaltecem personagens e acontecimentos que estão relacionados à escravidão. Inclusive muitos dos chamados heróis da independência, alguns deles ostentando nomes de ruas e estátuas no centro da cidade, eram figuras que se envolveram na luta de independência para defender a sobrevida da escravidão e do tráfico.De alguma maneira, esses monumentos projetam a mesma lógica da dominação escravista na medida em que invisibiliza parcelas significativas da população que se envolveram nas lutas passadas e tinham outro projeto de Brasil independente com liberdade para todas as pessoas.

( Gilson Jorge ))

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 26.06.2022

Cortella falando sobre Paulo Freire

21/06/2022 às 2:53 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
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É sempre bom lembrar quem foi Paulinho…


AI – 5: CADÁVER INSEPULTO

20/06/2022 às 2:43 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente essa aula do Professor Donny Correia. Em tempos de retrocessos explícitos de toda natureza, é importante relembrar a nossa História, porque afinal um povo que não conhece seu passado não tem o mínimo futuro !


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