“ENXERGO A OPERAÇÃO LAVA–JATO COMO UMA ÓPERA PARA O ENTRETENIMENTO DO POVO”

20/10/2017 às 3:06 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Muito boa e oportuna essa entrevista do Professor Moniz Bandeira.


“ENXERGO A OPERAÇÃO LAVA–JATO COMO UMA ÓPERA PARA O ENTRETENIMENTO DO POVO”

Com obras traduzidas para o inglês, espanhol, alemão, russo e mandarim, publicadas em dezenas de países, o intelectual baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira é, aos 81 anos, um dos pensadores brasileiros mais respeitados do mundo. Na semana em que a editora Civilização Brasileira relança dois clássicos do mestre em meio ao centenário da Revolução Russa, A TARDE publica entrevista concedida por e-mail da Alemanha, onde ele vive há muitos anos, sem jamais desviar o olhar lúcido do que acontece na pátria natal.

De que forma o sr. acompanha e participa do processo de tradução das suas obras para línguas tão diferentes do português, como o mandarim?

Esta não pude acompanhar, não falo esse idioma. Mas o tradutor foi um diplomata chinês, o conselheiro Shu Jianping. Ele consultava às vezes meu filho Egas, que fala, escreve e lê o mandarim. Formação do Império Americano é a minha obra traduzida para o mandarim e publicada pela Editora da Universidade de Renmin da China, uma das três maiores do país. Nos dois primeiros anos,saíram três edições. A terceira, ilustrada, é reimpressa aos milhares. Massó uma vez tive pagamento. Lá, livros são baratíssimos.

Qual o impacto na carreira de um intelectual ter obras traduzidas para tantos países?

Nenhum. Já estou a caminho de 82 anos, cheguei ao último nível da carreira, como professor titular da UnB, títulos e condecorações. As traduções e publicações nos países mostram, porém, que o Brasil não possui somente romancistas que se podem projetar internacionalmente; que possui também acadêmicos na área de ciências sociais capazes de escrever obras com interesse mundial, sobre outros países e não só sobre o próprio ou relações bilaterais. Tenho, como cientista político e historiador, obras sobre a formação do Império Americano, Oriente Médio, países do Cáucaso, reunificação alemã, Argentina e os Estados da Bacia do Prata, revolução cubana e América Latina, golpe no Chile etc. Esses temas, que desenvolvo em uma linha de pesquisa da causalidade da expansão imperial dos Estados Unidos, são de interesse universal, têm mercado, quando analisados e escritos com objetividade e baseados em pesquisas.

Toda essa expansão editorial do seu trabalho se traduz em retorno financeiro?

Apenas com a venda de livros acadêmicos, creio que ninguém poderia viver.

Entre os  livros que estão sendo traduzidos para outros idiomas destaca-se A Segunda Guerra Fria. Como o senhor avalia hoje as tensões entre EUA e Coreia do Norte, além da guerra na Síria, tendo EUA e Rússia em lados opostos?

Não creio na eclosão de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte. Só por um acidente afigura-me possível. A Coreia do Norte tem enorme poder de retaliar, ainda que não possuísse armas atômicas. Poderia retaliar os EUA, atacando a Coreia do Sul e o norte do Japão com mísseis convencionais, além das bases americanas na região e até causar colapso na economia dos EUA pelos vínculos entre esses países, e, consequentemente, na economia mundial. Os EUA não têm condições de saber onde todos os mísseis da Coreia do Norte se ocultam. E eles só atacam, como fizeram como Iraque e a Líbia,quandoos países se desarmam e não dispõem de poder de retaliação. Essa, aliás é a razão pela qual a Coreia trata de desenvolver mísseis e ogivas nucleares, quanto mais Washington ameaça. Não me parece que Kim Jong-un pretenda iniciar uma guerra, pois sabe que o país seria devastado. O objetivo principal dele é salvar o regime e a dinastia. Quanto à Síria, o presidente Baschar al-Assad, com o apoio diplomático e militar da Rússia, já ganhou, virtualmente, a guerra contra o Exército Islâmico e outros grupos terroristas armados e treinados pelos Estados Unidos.

Qual a avaliação que o senhor faz hoje das suas duas obras sobre a Revolução Russa com cerca de 50 anos e que estão sendo reapresentadas?

Essa 4ª edição de O Ano Vermelho é um livro inteiramente novo. Tive de reescrevê-lo totalmente. A 1ª edição tornara-se impublicável ao meu ver. Fora escrita nas piores condições da clandestinidade, em que me encontrava ao regressar do exílio no Uruguai. Era uma obra pioneira. Mas, desde então e, sobretudo, a partir anos 1980, ocorreu um avanço das pesquisas, com diversas dissertações e teses, inclusive na Bahia, sobre a greve geral de 1919, quando meu tio-avô, Antônio Ferrão Moniz de Aragão, como governador do Estado, apesar das fortes pressões, se recusou a reprimir o movimento e, juntamente com o líder socialista Agripino Nazareth, negociou com os patrões a jornada de oito horas de trabalho e outras reivindicações dos operários. E a greve triunfou. O outro livro – Lenin -Vida e Obra – apenas revisei e ampliei.

A Revolução Russa deixou algum legado positivo para a humanidade?

Claro!Otemordeque elase espraiasse levou o presidente Woodrow Wilson [EUA, 1913 a 1921] a inserir no Tratado de Versailles um capítulo sobre os direitos sociais, obrigatório para todos os signatários, o que reforçou a conquista das reivindicações pelas quais o proletariado do Ocidente havia tempo lutava. No Brasil, adensou a eclosão das greves ocorridas entre 1917 e 1919 em quase todos os Estados, o que resultou na legislação trabalhista, que atualmente o empresariado industrial e banqueiros tratam de derrogar. Há a mesma tentativa nos mais diversos países, sustentada pelo avanço tecnológico, como a robotização, digitalização, fabricação offshore etc. Não obstante o regime stalinista, que se dissolvia, o fim da União Soviética representou catástrofe, não só geopolítica, mas também social, ao abrir espaço para o neoliberalismo.

Uma mensagem do senhor ao jornalista Paulo Henrique Amorim, em que apontou intervenção militar como única saída para o Brasil,causou rebuliço. O senhor ainda defende esta ideia?

Não se trata de defender a ideia de intervenção militar, mas de prever, vislumbrar a perspectiva que se desdobra, diante da radical divisão da sociedade brasileira, a efervescência do ódio e da intolerância, como nunca antes houve. E aí está a crise institucional com o conflito de poderes, como ocorre entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal, enquanto a criminalidade se expande, com a desmoralização dos poderes públicos assenhoreados por chefes e membros de organização; o apodrecimento político do país e a falta de um projeto nacional. Porém, o problema não é só a corrupção, que é inerente à república presidencialista, com o financiamento eleitoral, distribuição política de cargos etc. A Operação Lava-Jato é uma ópera para o entretenimento do povo, e na qual o juiz Sérgio Moro e diversos procuradores da república parecem esperar contrato para papel de heróis de Hollywood. Entrementes, o presidente de fato, Michel Temer, entrega o patrimônio nacional aos estrangeiros em termos de sell off, como promoção. E a situação econômica e política cada vez mais se complica. Investimentos estrangeiros não afluem para países em recessão, a não ser para comprar os ativos existentes a baixo custo. Assim, todas as condições apontam para uma intervenção militar. Mas as Forças Armadas até hoje sofrem o desgaste do golpe de 1964 e da ditadura que impôs, e o Alto Comando está dividido. E daí que não desejam entrar em uma aventura. Todos sabem como um golpe inicia, mas não como pode terminar. Sobretudo nas atuais circunstâncias em que se encontra o Brasil.

E neste momento de redefinição (ou indefinição) política e econômica no Brasil, qual a expectativa do senhor para os próximos anos no país? O senhor tem otimismo?

O Brasil chegou a um ponto que não permite qualquer previsão. A imagem no exterior é a de um país que se afunda na lama. É atualmente visto como republiqueta. Muitos estudantes brasileiros escrevem-me perguntando sobre as possibilidades de estudar na Alemanha. Querem sair do Brasil de qualquer jeito. Não veem futuro. Como pode alguém ser otimista?

O senhor está com projeto de escrever alguma nova obra?

Não. Cada obra que escrevo esgota minha saúde, preciso descansar.Querovoltar a reler romances, peças, poemas,como fazia na adolescência, na Bahia de outrora, onde nasci e me criei, antes de voar pelo mundo e estacionar na Alemanha, pátria de Goethe e de Schiller, de Marx e Engels.

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(Luiz Lassserre)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 17.10.2017

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Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

19/10/2017 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Maiakovski, um dos maiores poetas de todos os tempos. Minha homenagem !


Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

A foto mais conhecida de Maiakowsky, provavelmente tirada em sua excursão aos EUA.

“Nas calçadas pisadas de minha alma, passadas de loucos estalam (…)”[1]

Assim começa o poema “Eu”, composto em 1913 por um certo Vladimir Maiakovsky (1893-1930). Maiakovsky, então com 20 anos, viria a ser chamado de “o poeta da Revolução”.Mas, como todo poeta é, antes de tudo, um leitor profundo de si, Volodja[2] não seria exceção. Nascido na Georgia, Maiakovsky vinha de uma família de fidalgos, em que o salário do pai (como militar) permitia uma vida sem apertos financeiros. A situação mudou drasticamente em 1906 com a morte de seu progenitor.

“Professor,
……….jogue fora
……………..as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
…………….de mim
…………………..de minha era.”

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

A partir deste momento, Maiakovsky buscou em Moscou a educação que sua região não poderia proporcionar e, ao mesmo tempo, começou a participar ativamente de discussões políticas, sendo preso algumas vezes, chegando a passar seis meses inteiros na cadeia. Maiakovsky fazia aflorar seu talento para a retórica, poesia e artes, ao mesmo tempo que conseguia sobrevivência nos bares e clubes da cidade, através de jogos de cartas ou bilhar.

Maiakovsky com cerca de 20 anos em Moscou.

Entre 1912 e 1916 sua atenção foi voltada para o movimento Futurista na Rússia. Maiakovsky junto com Burlyuk e Kruchonykh formaram a vanguarda do movimento de “estética escrita” na Rússia, que tinha como objetivos declarados a “experimentação dos sons, das palavras e dos símbolos quase como se fôssemos operários da língua”. O Futurismo russo viria rapidamente a se ligar na dialética marxista, que Maiakovsky chamava de “maior ferramenta de entendimento do mundo”.

No túmulo dos livros,
………….. versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
……………………..como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
…………….mas terrível.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofrendo o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

Foto de Maiakovsky logo após ter tirado a própria vida. O tiro no peito é visível embora alguns defendam que não foi totalmente intencional. Maiakovsky, em depressão, jogava com a vida já tendo feito algumas vezes uma espécie de “roleta russa” e puxando o gatilho. Em 1930 foi o ponto final.

O poeta era, entretanto, mais um revolucionário do que um bolchevique. Politicamente, se aproximava ora dos anarquistas, ora dos mencheviques. Pulsava com a revolução. Não a Revolução Bolchevique, mas “A” revolução. A capacidade dos tempos de se contorcionarem e produzirem novos chistes de sociedade. A isto Maiakovsky dava a sua energia. Disto Maiakovsky tirava a sua.

Esta postura colocou o artista em colisão com Lênin e também com Gorky. Lênin o acusava de produzir devaneios, sem um sentido geral de ação social. Mesmo as odes de Maiakovsky soavam caóticas demais para o líder bolchevique. Gorky criticava Maiakovsky pela falta de um rigor sobre os objetos representados. O mundo de Maiakovsky era o mundo que Maiakovsky queria ter e não a realidade que ele e a Rússia viviam. Ator, produtor, cenógrafo, poeta e um outro sem número de atuações em vários campos das artes, Maiakovsky amou as mulheres de sua vida tanto quanto a ideia de Revolução.

Apesar de ter uma vida bastante atribulada com as mulheres, Maiakovsky teve em Lilya Brik o seu verdadeiro amor. A distância dela foi também um dos motivos para o suicídio.

Homem forte e com feições bonitas (apesar de sérios problemas dentários) Maiakovsky tornou-se a voz da reorganização cultural da Rússia após a revolução. Não aceitava, contudo, a ideia de usar a cultura para conformar. Para Maiakovsky, a cultura e as artes deveriam rasgar a realidade, torturá-la e deste choque prenunciar novos mundos e novas ideias. Quanto mais o sistema soviético se tornava estável e avesso aos “rasgos revolucionários”, mais Maiakovsky ia se tornando desimportante e perigoso.

Boris Pasternak (outro poeta russo) afirmou que enquanto o poeta Maiakovsky anulou o ser humano Vladimir, alimentando-se da euforia das revoluções, Maiakovsky viveu e foi feliz. Quando o mundo revolucionário não mais aceitava o poeta, o ser humano que habitava no poeta não pode resistir à realidade. Em 1930, Maiakovsky, deprimido por estar sendo preterido culturalmente, cerceado politicamente e distante de sua amada, jogava pela terceira vez com a sorte. Colocava uma bala na arma e apontava contra o peito.

(…) Você dormia, rosto preso ao travesseiro,
Dormia, a plenas pernas, a plenos tornozelos,
Penetrando de novo, de um só golpe,
No fabulário das legendas jovens.
E penetrando da maneira mais direta
Porque nele você entrava de um salto.
Teu disparo parecia um Etna
Sobre as encostas de covardes e fracos.

(Boris Pasternak, 1930 “A morte do poeta”)

Em 14 de abril de 1930, a sorte levava Maiakovksi ao suicídio. Muito antes, segundo ele, a Revolução já tinha morrido. O poeta que Maiakovsky foi recebeu de Stalin o título de “maior poeta soviético” e até 1953 a memória de Maiakovskyfoi cultuada na URSS. Após a morte de Stalin, o processo de desestalinização da URSS atingiu em cheio a memória de Maiakovsky. A vida de Volodja seguiu de perto a própria vida da Revolução, viveram um para o outro e parecem também ter morrido juntos. Maiakovsky Revolução.

(…) Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos, a história do universo

(Fragmentos, Maiakovsky 1928-1930)

[1] Todos os poemas de Maiakovsky aqui foram traduzidos por Haroldo de Campos, incluindo o poema de Boris Pasternak

[2] Apelido russo do nome Vladiimir (Владимир). A grafia russa é Володя

(Fernando Horta)

FONTE: https://www.sul21.com.br/jornal/maiakovsky-o-coracao-exposto-da-revolucao/

A Revolução que abalou o mundo

16/10/2017 às 3:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente esse resgate histórico do Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior da UFBA.

revolucao_russa_kaili_1917_site


A Revolução que abalou o mundo

“Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano”, escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts. Autor do magistral Revolution and counterrevolution: class struggle in a Moscow metal factory, ainda sem tradução no país, Murphy esteve no Rio em setembro para participar de um evento na universidade e para refletir sobre o centenário da Revolução que mudou o mundo, tema em que é dos principais especialistas na atualidade.

A chamada Revolução de Fevereiro aconteceu quando da deflagração de greves que logo se generalizaram pelas principais cidades. Segundo Murphy, as mulheres russas trabalhavam 13 horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam no front combatendo na guerra. Condenadas “a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero grau, na esperança de conseguir um pão”, as mulheres não precisavam de muito convencimento para se lançarem à luta. Desencadeada a partir do setor têxtil de Petrogrado, em poucos dias, a greve iniciada por algumas centenas de mulheres se alastrou e pôs o regime tzarista nas cordas.

A Revolução de Fevereiro foi, para a Rússia, aquilo que a Revolução de 1789 foi para os franceses, uma revolução tipicamente burguesa. A autocracia tzarista, sustentada num regime brutal e senil que perdurava por séculos, muito além do absolutismo no ocidente europeu, não teve como opor resistência. Não obstante, a disposição dos trabalhadores, que há apenas 12 anos tinham oferecido ao mundo um mecanismo de auto-organização e de duplo poder absolutamente eficaz, os sovietes, logo sugeriu que os protagonistas da revolução não pretendiam circunscreve-lá ao horizonte burguês.

Mergulhados numa crise econômica e social profunda, cujo pano de fundo era o abismo que dividia ricos e pobres, o brutal regime tzarista não resistiu. Depois de alguns dias, Nicolau II saiu da história pelas portas dos fundos, dando lugar a um governo constituído, em sua maioria, por Socialistas-Revolucionários e Cadetes e uma minoria de mencheviques.

Do exílio na Suíça, Vladimir Ilitch Lenin, principal dirigente bolchevique, arrumou as malas para partir para Petrogrado. Antes de tomar o trem blindado com destino à Estação Finlândia, Lenin redigiu suas Cartas de longe, um poderoso manifesto em que colocava as suas impressões sobre os acontecimentos na Rússia e apontava as principais tarefas dos bolcheviques: “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. Esta primeira revolução não será, certamente, a última”, escreveu. Premonitório, Lenin partiu para a Rússia destinado a escrever uma das mais importantes páginas da história da humanidade.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 13.10.2017

As tabelas trigonométricas mais fáceis e precisas, criadas mil anos antes de Pitágoras

14/10/2017 às 3:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Impressionante esse artigo. Quanta cultura temos originadas dos povos babilônicos. E quanto já se destruiu do Iraque e redondezas…


As tabelas trigonométricas mais fáceis e precisas, criadas mil anos antes de Pitágoras

Em todo triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos – você ainda se lembra das aulas de matemática da escola?

E o que diria dos senos e cossenos; tangentes e cotangentes; secantes e cossecantes?

E se soubesse que pelo menos mil anos antes que o matemático grego Pitágoras (569-475 a.C.) pensasse nos triângulos e que seu compatriota Hiparco de Nicea (190-120 a.C.) inventasse a trigonometria, os babilônios sabiam fazer o mesmo – e de uma forma menos complicada e ainda mais precisa?

Pois foi exatamente isso que revelaram os pesquisadores Daniel Mansfield e Norman Wildberger, da Escola de Matemática e Estatística da Faculdade de Ciências de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Eles descobriram o feito estudando uma tábua de argila quebrada da antiga cidade suméria de Larsa, com escritos cuneiformes que datam dos anos entre 1822 e 1762 a.C., que é conhecida como Plimpton 322.

O objeto foi descoberto no início do século 20 por Edgar Banks, o arqueólogo, acadêmico, diplomata e comerciante de antiguidades que serviu de inspiração para o personagem fictício Indiana Jones.

Tábua misteriosa

“A Plimpton 322 vem desconcertando os matemáticos há mais de 70 anos, desde que nos demos conta de que ela tem um padrão especial de números chamados terna pitagórica”, diz Mansfield.

“O grande mistério, até então, girava em torno de seu propósito: por que os antigos escribas levaram a cabo a complexa tarefa de criar e de classificar os números na tábua.”

“Nossa pesquisa revela que a Plimpton 322 descreve as formas de triângulos retângulos usando uma nova classe de trigonometria. É um trabalho matemático fascinante que demonstra uma genialidade indubitável”, ressalta o matemático.

“A tábua não apenas contém a tabela trigonométrica mais antiga do mundo. Também é a única tabela trigonométrica completamente exata, já que a abordagem babilônica da aritmética e da geometria era muito diferente.”

E talvez o mais empolgante é que esses conhecimentos da Babilônia poderiam melhorar e simplificar aspectos em campos como a topografia e a infografia, além de tornar mais fácil a vida dos estudantes.

Menos complicada, mais exata

Para poder afirmar que algo é melhor do que os gregos deixaram – e que temos usado durante séculos – é preciso fundamentá-lo, por isso comecemos nos valendo de uma imagem que os autores do estudo usaram em seu artigo no site The Conversation.

A conceituação do triângulo retângulo dos babilônios era diferente da dos gregos.

diagramas de triângulos

Image captionA conceitualização do triângulo retângulo dos gregos (esquerda) e dos babilônios (direita)

A trigonometria, como foi ensinada na escola, é um ramo importante da matemática dedicada ao estudo da relação entre os lados e ângulos de um triângulo retângulo e uma circunferência.

O problema de misturar triângulos com círculos é que quando se calcula a razão dos dois lados, tudo se complica e as quantidades têm que ser aproximadas.

Enquanto isso, os babilônios não usavam ângulos nem aproximações em sua trigonometria.

Para eles, explica Mansfield, um triângulo retângulo era a metade de um retângulo.

E tinha outra vantagem.

Um sofisticado sistema numérico

Número 60

Direito de imagem ISTO CK Image caption60 é melhor que 10 ou 2?

O sistema dos babilônios era sexagésimo, de base 60, como o que usamos para medir o tempo.

Esse sistema é melhor para fazer cálculos exatos.

“Se você divide uma hora em três, o resultado é exatamente 20 minutos”, ilustra Mansfield. “Se divide um dólar em três, o resultado é 33 centavos, e sobra um”.

O sistema sexagésimo permite fazer muito mais divisões exatas que o decimal.

Uma hora, por exemplo, pode ser dividida exatamente em 30, 20, 15, 12, 10, 6, 5, 4, 3, 2 e 1 minutos.

Um dólar só pode ser dividido exatamente em 50, 25, 20, 10, 2 e 1 centavos.

E se o adotarmos?

Daniel Mansfield

Direito de imagemUNSW/ANDREW KELLYImage captionDaniel Mansfield com a tábua babilônia Plimpton 322, que está na Biblioteca da Universidade de Colúmbia, em Nova York

É curioso que nossa tendência parece ir na direção contrária: quando chegaram os computadores, escolhemos um sistema simples, o binário.

Com apenas 1 e 0, conseguimos façanhas que há umas décadas eram ficção científica.

No entanto, a simplificação tem preço. Quando se trata de projetos que requerem muitas medidas e cálculos, o sistema te obriga a usar números irracionais, sacrificando a exatidão.

“Se os computadores pudessem ser programados para trabalhar na base 60, seriam mais precisos e menos caros”, destaca Mansfield.

Na computação, gasta-se muita energia calculando números inexatos e quando se fazem aproximações, cometem-se mais erros.

Além disso, os estudantes talvez entendessem mais facilmente o método de medição geométrica dos babilônios.

Sem senos e cossenos?

Ruínas babilônias parcialmente restauradas em Hilah, no Iraque

Direito de imagemISTOCKImage captionAinda há muito o que descobrir da antiga civilização babilônia

Sem números irracionais, sem ângulos, sem senos, cossenos, tangentes nem aproximações, a trigonometria babilônia era mais precisa.

No entanto, ficou esquecida.

Talvez isso tenha ocorrido porque a trigonometria grega seja mais apropriada para os cálculos astronômicos, destaca Mansfield e Wildberger. Mas ainda é um mistério saber ao certo por que o sistema não seguiu sendo usado.

“Estamos apenas começando a entender esta antiga civilização, que seguramente tem muitos outros segredos por descobrir.”

FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/geral-41072079

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