O REI DOS ANIMAIS

29/03/2017 às 3:33 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Li esse artigo em minha última viagem a Brasília, publicado no Correiobraziliense do dia 05 deste mês. Um texto muito bom, vale a pena conferir.


O REI DOS ANIMAIS

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O homo sapiens só se tornou o rei dos animais quando começou a desenvolver sua capacidade de abstração. Até então não tinha vantagens sobre outros humanos, como os Neandertais. Yuval Harari, historiador israelense, assinala que a chamada Revolução Cognitiva teria ocorrido entre 40 e 70 mil anos atrás. Se considerarmos que os humanos já povoavam o planeta há pelo menos 200 mil anos, pode-se concluir que foi uma conquista lenta e árdua. Conquista, por outro lado, alcançada quando ainda éramos caçadores-coletores, mais coletores do que caçadores, na verdade. Apesar do prestígio que o abate de um animal grande trazia aos machos da tribo, a maior parte dos alimentos necessários à sobrevivência da tribo era obtida de raízes, frutas, pequenos animais e até insetos. Pesquisadores observam que a grande vantagem da dieta desse período consistia na variedade alimentar que supria todas as necessidades nutricionais dos nossos avós. Já na agricultura, que com frequência consistia em uma monocultura (arroz, trigo, milho, batata, ou outro carboidrato, geralmente), havia carências importantes para nosso organismo de onívoros. É verdade que a agricultura, que começou há uns 12 mil anos, pode ter criado gente mais chata, mais rotineira, sem horizontes tão amplos quanto os dos caçadores-coletores (vistos por alguns especialistas com uma aura romântica, como se fossem aventureiros por livre escolha). É uma visão distorcida. Pequenos e frágeis bandos de algumas dezenas de membros tinham que disputar comida com competidores bem mais aparelhados de garras, mandíbulas e músculos. A grande vantagem que tinham era fruto da Revolução Cognitiva que permitiria intercâmbio entre bandos, troca de experiências, de produtos, e mais importante do que tudo, de linguagem. Não que a linguagem já não existisse. Humanos, de todas as espécies se comunicavam. Não só os humanos, na verdade. Hoje sabemos que baleias e golfinhos se comunicam, que cães e gatos se comunicam, que formigas e abelhas se comunicam. Mas se trata de uma comunicação básica do tipo: “cardume de sardinhas”, ou “açúcar no armário”. É impossível imaginar uma foca dizendo a outra “que tal homenagearmos nossa avó morta fazendo uma escultura naquele bloco de gelo?” ou uma abelha pregando uma rebelião: “vamos atacar aquele agrônomo que vai envenenar os pomares?”.

A capacidade de pensar abstratamente, com coesão e coerência, é uma característica não apenas humana, mas de uma espécie especifica de humanos, o homo sapiens. Ela surge, não se sabe ainda porque, nem exatamente quando (entre 40 e 70 mil anos é um prazo bem elástico), e tem várias consequências. A primeira foi a de acabar com a concorrência. Mais articulados, mais capazes de trabalhar em grupos maiores, os sapiens se impõem sobre os outros e se tornam os únicos humanos a habitar o planeta. Vestígios de DNA de neandertais encontrado em populações europeias e do médio oriente mostra que em alguns lugares deve ter ocorrido um cruzamento entre as espécies, mas em outras nós prevalecemos, por bem ou por mal.

Em alguns vales (na Índia, na China, no Egito, na Mesopotâmia, por exemplo) fomos nos estabelecendo, criando nossas famílias com mais segurança, plantando os produtos mais adequados a cada condição geoclimática, construindo casas, levantando cercas, inventando deuses para nos proteger de outros humanos e adotando cães para nos alertar contra animais perigosos. Onde havia abundância deixamos outras famílias se juntar às nossas e fomos estabelecendo regras de conduta e formas de adoração daqueles deuses que havíamos inventado. Tratamos de transmitir aos nossos descendentes não apenas nossas práticas agrícolas, nossas técnicas de construção, ou nossa forma de preparar alimentos e estocá-los para dias de carência, mas também ensinamos nossa língua, ou seja, o nome das coisas concretas e das coisas abstratas, do mundo real e do mundo da imaginação. Esta capacidade, que mais tarde transmitiríamos pela palavra escrita, principalmente através de livros, corre o risco de se perder. Não para todos, já que sempre haverá uma parte da população capaz de criar e transmitir conceitos, ideias, imagens. Mas para aqueles que se satisfazem apenas em digitar e ler tolices, retroagindo dezenas de milhares de anos. Não adianta que o façam em aparelhos modernos, como se a mídia sozinha fosse a mensagem.

Não é.

(Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp, autor de As primeiras civilizações, entre outros livros.)

FONTE: http://www.editoracontexto.com.br/blog/o-rei-dos-animais-jaime-pinsky/

QUEM VAMOS INVADIR A SEGUIR

17/02/2017 às 2:47 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Documentário do Michael Moore “Where to invade next”. O Michael revela as mazelas do sistema econômico americano, como eles produziram um país rico, mas que não figura entre os 10 primeiros em educação, que tem expectativa média de vida 5 anos a menos que italianos e portugueses, em que as pessoas só tem 20 minutos para almoçar, não tem férias, vivem estressadas e deprimidas, onde mais de 40 milhões de pessoas não têm qualquer acesso básico a saúde e onde só quem nasceu rico tem acesso ao ensino superior. É de deixar qualquer coxinha louco. Esse filme se torna especialmente importante em um momento em que o Brasil acha que os EUA sao o padrão que devemos perseguir, com o desmonte das leis trabalhistas e do sistema de aposentadoria. O Michael Moore viaja para a Itália, Portugal, Noruega, Alemanha, França, Finlândia e Islândia, fazendo uma comparação interessantíssima.
O documentário também está disponível no Netflix.


Fotógrafo brasileiro recebe o prêmio The John Faber Awards, da Overseas Press Club

02/05/2016 às 18:02 | Publicado em Midiateca | Deixe um comentário
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Parabéns !

“Considero muito importante falar algumas palavras para vocês. Sou do Brasil e tenho certeza que vocês devem saber o que está acontecendo lá nesse momento. Gostaria de expressar meu apoio a liberdade de imprensa e a Democracia, que é exatamente o que não está acontecendo no Brasil nesse momento. Sou contra o Golpe”


30 Dicas para sobreviver às semanas da discussão do impeachment

12/04/2016 às 3:53 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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Excelentes sugestões de Sakamoto, confiram !


30 Dicas para sobreviver às semanas da discussão do impeachment SAKAMOTO

Estas próximas semanas têm tudo para estarem entre as mais tensas da história recente do país, com a discussão e votação do impeachment de Dilma Rousseff no Congresso Nacional, manifestações pró e contra tomando as ruas , instituições democráticas sendo colocadas à prova a todo o tempo. Isso sem contar a imprensa, tradicional ou alternativa, que terá que realizar seu trabalho de forma razoável, digna e crível – e provar isso.

Mas também vai ser um teste sobre a capacidade de cada um de nós de respirar fundo e refletir diante da tensão. Nos últimos tempos, a quantidade de informação incorreta, distorcida, mal-checada e brotada mais do desejo do que da realidade tomou conta. Como diria um colega jornalista, do maior telejornal ao pequeno site de notícia, está difícil saber se um gato é um fato ou uma falha na Matrix.

Organizei um apanhado de 30 sugestões para ajudar no consumo de informação nestas semanas. Ele não resolve o problema, claro. Solução seria se os brasileiros fossem formados para a mídia e para a tolerância – coisa que não são. Mas pelo menos a lista ajuda na reflexão.

Se checamos a validade, o cheiro e a aparência de um produto antes de comê-lo, por que colocamos para dentro qualquer porcaria que aparece sem questionar?

Seguem as sugestões:

1) Não forme opinião apenas pelo que dizem sites de internet, veículos de imprensa e, principalmente, políticos e lideranças sociais.

2) Desconfie de seus amigos, chefes, colegas, vizinhos, governos. Se você quer prezar sua sanidade mental, considere uma boa dose de cinismo como aliada. Não o bastante para se tornar uma pessoa que não acredita no mundo e no seu semelhante, mas o suficiente para não ser uma cobaia. Agora e sempre.

3) Não tenha medo de soltar um “Para, miga, cê tá loka!” diante de algo que você sabe infundado passado adiante por um conhecido. Lembre-se que o silêncio é cúmplice.

4) Ponha em xeque os ensinamentos de sua família, do seu professor, de seu guru espiritual ou daqueles que dizem falar em nome do seu deus. Duvide inclusive da lista deste jornalista cabeçudo (mas que te ama).

5) Esteja aberto a pontos de vista diferentes dos seus, sem necessariamente comprar as ideias neles presentes.

6) Absorva o máximo de informação possível, de fontes com visões diferentes. Depois, com calma, converse, verifique, reflita e analise antes de formar opinião.

7) Pense. Não deixe que pensem por você.

8) O mundo não precisa ser colorido e engraçado. A vida não é conto de fadas. Conforme-se com isso e pare de fugir, criando bandidos e mocinhos, heróis e vilões, onde eles não existem.

9) Se alguém é petista, psolista, tucano, palmeirense, corintiano, flamenguista, fluminense, Garantido, Caprichoso, esquerda, direita, centro, onívoro, vegano, pedestre, ciclista, motorista não significa que seja o mal encarnado. Talvez apenas pense diferente de você.

10) Criticar as ideias e ações fazem parte do debate público. Mas cuidado para não transformar o outro em nada, desconsiderando-o por sua opinião.

11) Olhe sempre a data de um texto antes de achar que é uma novidade.

12) Fuja de textos anônimos como o diabo foge da cruz.

13) Procure sempre saber quem é o autor de um texto assinado.

14) Desconfie de “evidências” bombásticas e irrefutáveis. Quem se apresenta assim normalmente é fruto de mimimi e blablablá.

15) Busque o contexto em que a notícia está.

16) Leia o texto inteiro e não tire conclusões antes de termina-lo.

17) Não se deixe levar por quem escreve bonito. Ou quem fala bonito.

18) Não se apegue tanto às imagens. Elas são importantes, mas podem ser manipuladas como textos.

19) Leia tantas coisas com as quais discorda quanto com as quais concorda. Isso é difícil, mas entender o outro lado ajuda inclusive a reforçar o seu.

20) Não divulgue notícia sem antes checar se a fonte de informação é confiável.

21) Não espalhe notícias relevantes sem atribuir a elas fontes de informação. Um “cara gente boa” ou um “Best Friend Forever” não é, necessariamente, fonte de informação confiável.

22) Tuítes e posts sem fonte clara, jamais deveriam ser aceitos como instrumento de checagem ou comprovação. Sites que caluniam e não se dignam a informar quem é o responsável, muito menos.

23) Não esqueça que informação precede opinião. Não esqueça que informação precede opinião. Não esqueça que informação precede opinião. Não esqueça que informação precede opinião. Não esqueça que informação precede opinião.

24) Não repasse informações que não fazem sentido algum só porque você não gosta da pessoa ou instituição em questão. A disputa entre posições políticas deve ser baseada em um jogo limpo e não em invenciones.

25) Lembre que mais vale um tuíte ou post atrasado e bem checado que um rápido e mal apurado. E que um número grande de retuítes, compartilhamentos e “likes” não garante credibilidade de coisa alguma.

26) Não esqueça que qualquer apuração feita pessoalmente, por telefone e/ou por e-mail precede, em ordem decrescente de importância, o chute. E que uma profunda reportagem deveria valer mais que um meme na formação da sua opinião.

27) Não tenha pudores de reconhecer, rapidamente e sem poréns, um erro em caso de divulgação ou encaminhamento de informação incorreta. Pedir desculpas é divino.

28) Não é porque algo está circulando na internet, foi impresso em jornal, transmitido por rádio ou apareceu na TV que é verdade. O conteúdo tem que provar que é verdadeiro, pelas evidências que traz, pela credibilidade de quem o traz.

29) Na hora do embate de ideias, tenha calma. Dê a si mesmo o direito de se questionar e se perguntar se está certo. Nossa natureza não é de certezas, e sim de dúvidas.

30) E lembre-se: Falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto.

(Leandro Sakamoto)

FONTE: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/04/09/30-dicas-para-sobreviver-as-semanas-da-discussao-do-impeachment/

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