Por que os Brasileiros se “acham” melhores quando estão no exterior

04/08/2015 às 11:25 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Para refletir. Ah se Nélson Rodrigues fosse vivo…


Por que os Brasileiros se “acham” melhores quando estão no exterior

O título do meu texto é uma provocação na verdade ao depoimento de Renata Velloso, uma médica, que mora nos EUA há quatro anos e é melhor do que você. O texto em questão se encontra hospedado no site todo branquinho e minimalista do projeto Draft, um .com que se propõe também a ser melhor do que você. O Draft tem publicado recentemente uma série de posts de pessoas que moram no exterior e têm algo a dizer aos brasileiros, que infelizmente ainda moram na desgastada terra tupiniquim e não tiveram a oportunidade de fugir antes que o país vire Cuba ou Venezuela.

banana brasil macaco

Républica da Banana Internacional. Os brasileiros evoluídos que só escutam o que vem de fora.

Há alguns meses a jornalista Tania Menai, também do projeto Draft, nos contou por exemplo como foi surpreendida ao chegar na escola da filha nos EUA e encontrar um casal de homens gays negros deixando um pequeno filho adotado no jardim de infância (acredito eu que ele seja adotado ou talvez os americanos estão tão avançados que homens estão parindo e não sabemos). Ela achou o fato símbolo máximo da modernidade. Aí ela dá um conselho para quem vive no Brasil no sistema Casa Grande / Senzala e pretende imigrar. Diz assim “Se você tem porteiro, empregada, motorista, babá , folguista e despachante, pense antes de fazer as malas e tirar os filhos da escola, rumo ao exterior. Para sair do Brasil, você precisará rever alguns valores”. Link do texto da Tania.

O legal é o conselho de rever valores dado para quem vai ao exterior e não para quem fica no Brasil. Veja bem, no Brasil dividido pode Senzala, aqui no exterior não. Aí tem o texto da médica Velloso. Leia aqui. Ela conta uma série de aprendizados ao viver nos EUA, como a arte de lavar louça, cozinhar miojo e dizer para a filha que a empregada doméstica não é responsável por suas lições escolares e sim a própria menina. Eu fiquei impressionado quando ela disse que isso no Brasil era normal na classe média. Se soubesse disso antes teria ficado.  Ela ainda conta a incrível descoberta das filhas que aprenderam nos EUA a arrumar a própria cama, a lavar a própria louça e tirar a mesa do jantar.  Bom, a minha mãe do interior de Minas era americana e não sabia.

Faz sucesso na rede textos com os títulos. “Porque o Brasil é o pior em qualquer coisa”. “Porque o Brasil não vai pra frente”. “Porque o brasileiro não está preparado para nada”. “Porque eu sou muito melhor quando estou no exterior”. E “Porque não volto nunca mais” e por fim “Os americanos são muito melhores”.

O que eles possuem em comum? Uma mistura de ignorância, falta de estudo e ranço. Quem está com raiva do Brasil se delicia com os ataques, vibra com notícias “bad trip”. É uma espécie de vingança. E a maioria compartilha como uma forma de apontar a própria evolução.  “Me tornei internacional, logo sou melhor do que você”. Enquanto na realidade conhecemos brasileiros no exterior que são muito mais provincianos do que meu primo tirador de leite em Boa Família, interior de Minas Gerais. Meu primo respeita a natureza, consegue ler as estrelas e saber se vai chover no outro dia sem abrir um celular burro, pensa no grupo e na sustentabilidade e acabou de aprender gaita. Enquanto este bando de profissionais dito qualificados se alimentam do comparativo com o Brasil ainda em dificuldade. Só não entendo uma evolução que tem a necessidade de se nivelar por baixo.

Você nunca vai ver um brasileiro “Miami” compartilhando este link da revista Exame que acaba de mostrar o crescimento de lucro da BRF de 42%. Muito menos o crescimento da Riachuelo de 18,9%. Muito menos os 5 brasileiros que acabaram de ganhar o concurso de redação da ONU. Ou as 6 medalhas na Olimpíada Internacional de Matemática que deixou países como Alemanha para trás.  E a eleição de São Paulo como a melhor cidade paraStartups da América Latina, nem sonhar. As 10 novas fábricas de carro com 14 bilhões de investimentos até 2016. Mentira.

passaporte brasileiro

Passaporte do Brasil. O novo diploma dos “intelectuais tipo exportação”

Existe uma revolução que não é feita no exterior, nem tão pouco em terra própria, nasce na alma.  Bateria palmas se os escritores conselheiros do projeto Draft tivessem uma centelha de evolucionismo e abolissem a escravatura estando ainda no Brasil e ensinassem isso aos gringos após desembarque em terra estrangeira. Dou meu siso e aposto que estes brasileiros só não possuem empregada no exterior por que não podem. Por que não possuem condição ou por que não possui mão de obra barata disponível. Aqui no Canadá por exemplo empregada ganha como qualquer outro profissional. Isso é demais para o “brazuca Miami”. Não ter acesso ao navio negreiro é triste. Ou a doutora formada em medicina quer me convencer que só foi aprender a não ter empregada no exterior. Pode aprender a tratar um paciente, mas não a respeitá-lo. Como se houvesse uma sorte de mágica de intelectualidade no momento em que se pisa no estrangeiro. Meu amigo, tua ignorância não será curada no exterior, no máximo exposta.  Será confrontada. Talvez seja este o fenômeno pelo qual tem vivido os autores dos textos do Draft e muitos brasileiros que vibram quando leem notícias negativas da nossa pátria mãe. Além do mais, a maioria deixa de produzir questionamentos quando vai morar fora. Como se o mundo no exterior estivesse pronto e ele agora fosse mais uma peça a ser moldada, mas nunca a influenciar seu novo meio.

O egoísmo de uma parte da sociedade brasileira tem se evidenciado em tempos de rede. Pergunte a este brasileiro qual o melhor período político pelo qual já passou. Ele irá pensar e contar quantos carros tinha na década x, se os filhos comiam Danoninho nos anos 80 e terá a resposta. Ele só olha o próprio umbigo na hora de avaliar. Existe uma parcela da sociedade brasileira incapaz de ler o cenário como todo.

O Brasil tem problemas evidentes, inclusive os que me levaram a deixá-lo para trás. Mas tripudiar é um ato de ignorância, pelo simples fato de não corresponder a realidade. É preciso ter equilíbrio e saber que o país avança e que se exportamos cabeças, é por que produzimos intelectuais.  O gasto público no Brasil em ensino atingiu os6,6% do PIB, um índice elevado para padrões mundiais. Pouca gente sabe que isso começou com Dom Pedro II.

Nós do Montreal na Real estamos produzindo uma reportagem em vídeo sobre a Universidade McGill, aqui em Montreal. Logo você irá assistir em nosso canal. A universidade possui simplesmente 10 prêmios Nobel. Por lá entrevistamos 2 crânios do Brasil. Um é PHD em neurociência e outro PHD em neurolinguística.  Eles estudam aqui, mas são frutos do Brasil. E nos disseram que o que produzem aqui irá refletir na qualidade de vida de nosso conterrâneos.  Imigrar é expandir fronteiras. É saber que você é a extensão de seu país. É a formação de uma nova identidade, mas a partir de suas origens. Meus valores foram moldados no Brasil, não aprendi a respeitar gente no Canadá. Tenho a impressão que estes textos de “gente evoluída” trata sempre de um novo brasileiro. De uma nova espécie. Quem sabe um dia eles não fundam a República da Banana Internacional.

(Rogério Tanganelli)

FONTE: http://montrealnareal.com/2015/07/30/por-que-os-brasileiros-se-acham-melhores-quando-estao-no-exterior/

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